As várias faces da INTOLERÂNCIA. (considerações livres)

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Olá queridos… O post de hoje é um pouquinho diferente do que vocês costumam ver aqui no blog… Queria compartilhar com vocês uma situação que me ocorreu essa semana e que pode inspirar reflexão em todos nós. Pensei muito antes de escrever esse post, mas… No fundo do meu coração, eu senti que deveria.


Desde que tornei pública a minha escolha alimentar (vegana), já fui alvo de VÁRIAS “brincadeiras”. Geralmente eu não saio por aí contando isso para as pessoas, mas eventualmente quando surgem convites ou quando estou em situações sociais onde a comida está envolvida, é natural mencionar a minha escolha.

Tento sempre ser discreta em relação a isso e eu nunca, em hipótese alguma, faço a postura da “veg-chata” que as pessoas tanto criticam. Nunca julgo a escolha do outro (em comer carne), apenas INFORMO a minha. Mesmo assim, sempre recebo as mais variadas reações: sim, algumas pessoas acham bacana e perguntam mais detalhes… Porém infelizmente não é o caso da maioria. 


A reação dos outros (principalmente quando através das redes sociais) é de fazer piadinhas de todos os tipos, sempre com o sentido de “me mostrar que estou errada” de alguma maneira, que sou louca, julgando e condenando minha escolha e às vezes até numa postura de “atacar para se defender” (como se isso tivesse algum sentido!)… Tento sempre levar na esportiva, por fora. Porém por dentro, me sinto incomodada.

Já cheguei até a receber perguntas do tipo: “Você agora só atende veganos?” – como se eu fosse jogar fora o juramento que eu fiz ao me formar em Medicina e expulsar do meu consultório alguém que busca ajuda para cuidar de seu Diabetes ou de seu nódulo na tireóide…
Na última semana, aconteceu novamente, desta vez em um grupo de whatsapp de pessoas muito queridas. E, dessa vez, me senti realmente ofendida.
(Quero deixar claro que não estou aqui para “retaliar” as pessoas que fizeram tal brincadeira, até porque, já conversei a respeito no tal grupo. O objetivo é instigar a reflexão mesmo).



Enfim, quando as brincadeiras começaram, eu me vi reagindo de uma forma que até para mim foi uma surpresa (pois sou uma pessoa bem tranquila). Nunca imaginei que me sentiria assim. Na hora, tentei mudar o foco e as brincadeiras continuaram. Eu parei e reli o que tinha escrito, percebi que quem havia começado o assunto tinha sido eu, portanto me culpei e me calei. Mas continuava um incômodo no meu coração.

Foi quando realmente “caiu a ficha”: se eu estava me sentindo assim por ter pessoas “me desmerecendo” por uma ESCOLHA que eu fiz e que é diferente do “senso comum” (sem entrar no mérito de se é certa ou errada)… Imagina as pessoas que são desmerecidas todos os dias por serem diferentes em raça, credo, gênero ou orientação sexual? 

Muitas vezes somos intolerantes sem mesmo perceber!!!!!!
E, às vezes, esse “preconceito velado” está nas entrelinhas!!!!
Quem sofre a intolerância muitas vezes, de tão acostumado, se culpa e se cala, como eu fiz. E o pior: se sente mesmo “errado”.


Quem me acompanha aqui nas redes sociais já deve ter percebido que eu tenho um grande apreço pelas “minorias”. Faço parte, como voluntária, do comitê técnico da saúde da população negra em Campinas. Fiz meu mestrado e doutorado cuidando de crianças que nasceram com alterações genitais (chamadas no meio comum de “intersexo”). Trabalho com transsexuais e transgêneros no consultório. Sou membro de grupos de empreendedorismo feminino. Faço parte de uma comunidade religiosa de matriz africana e de um grupo de trabalho para o combate à intolerância religiosa. Sou vegana por escolha filosófica, espiritual e de saúde. Quando vejo alguém sofrendo, consigo sentir dentro de mim a dor do outro.


Ainda assim, depois que essa ficha caiu me senti profundamente grata pelas brincadeiras que recebi. Pois me fizeram perceber que talvez eu já tenha feito brincadeiras semelhantes sem perceber e que muitas vezes posso também não ter percebido o sorriso amarelo do outro lado. E, ao sentir na pele, foi quando pude me dar conta disso. E foi quando pude realmente ter empatia pelas pessoas que sofrem intolerância todos os dias por motivos que estão além da sua escolha. Não sou melhor do que ninguém e aproveito a oportunidade para pedir desculpas para aqueles que eu porventura possa ter ofendido sem perceber.

Humildade é estar ciente que somos imperfeitos e que precisamos estar o tempo todo vigiando nossas ações e pensamentos pois quando estamos distraídos é que essas coisas infelizmente acontecem.  Qualquer um de nós pode estar cometendo uma tremenda injustiça (ou mesmo uma grande falta de educação) sem saber. Por isso, devemos parar e ouvir o que os grupos de militância tem a dizer. Pois não temos como adivinhar como o outro se sente após uma ação da nossa parte, a não ser que esse outro nos conte.

Antes de criticar, julgar ou mesmo “brincar” com alguém, devemos parar e pensar: se eu estivesse do outro lado, será que eu levaria na brincadeira ou me sentiria ofendida?


Quando uma pessoa trans te pede para ser chamada pelo nome social, chame. Quando uma pessoa afrodescendente pede pra não usar expressões do tipo “a coisa tá preta”, não use.  Quando alguém de classe social inferior à sua cruza com você na rua, não aja como se essa pessoa fosse te roubar. Quando um casal homoafetivo decidir adotar uma criança, comemore. Existem muitas crianças abandonadas no mundo precisando de um lar. Quando alguém de escolha religiosa diferente da sua fala sobre sua fé, procure se informar antes de julgar. Quando algum amigo seu falar que decidiu virar vegetariano ou vegano, apoie (ou, pelo menos, não julgue). A vida do outro não é sua, você não tem nada a ver com isso, a escolha do outro não muda em nada a sua vida. Deveríamos parar de querer controlar o mundo e “encaixar” tudo e todos na NOSSA “verdade”.


Para finalizar, quem me conhece sabe que há alguns anos eu faço um trabalho de ministrar palestras de conscientização sobre o impacto das nossas escolhas alimentares em nossa saúde (e também inspiro a reflexão a respeito da hiper-industrialização dos nossos alimentos).  E nas minhas últimas palestras, apesar de eu ter escolhido ser vegana, em nenhum momento eu “obrigo” ou “tento convencer” alguém a virar vegetariano ou vegano. Eu jamais faria isso, pois respeito o livre arbítrio de cada um.

Mas me sinto na obrigação de mostrar um outro lado da carne que a gente come e, com as recentes notícias que estão saindo na mídia sobre a “qualidade” (ou falta de qualidade) da carne no Brasil, quem ainda tinha dúvidas sobre as coisas que eu digo tem mais um motivo para pensar a respeito. Acredito do fundo do meu coração que temos TODO O DIREITO de fazer a escolha que quisermos, inclusive de comer um monte de carne. Mas também acredito que devemos fazer as nossas escolhas de forma CONSCIENTE, sabendo exatamente a consequência de cada uma das opções. E, infelizmente, muitas pessoas não tem essa consciência, não sabem o que acontece “por baixo dos panos”. Por isso, coloco minha cara a tapa nas palestras e estou colocando novamente aqui com minhas palavras.

Termino essa mensagem compartilhando com você um poema que foi musicado pelo talentosíssimo DJ Vintage Culture, chamado “MANIFESTO”. Pois tenho certeza de que a música fala diretamente com a nossa alma.



Desculpem o texto tão longo e tão diferente do habitual aqui do blog. Se estou ofendendo alguém, peço antecipadamente desculpas. Mas a intenção é verdadeira e tudo o que escrevi foi com todo o amor do meu coração.

Uma ótima segunda-feira a todos e uma semana excelente, com MUITO, MUITO AMOR.

“O amor é o único caminho”.



(Observação importante: quando ponho no título do artigo “considerações livres”, significa que é isso mesmo: são considerações pessoais, livres, que não necessariamente dizem respeito ao que foi publicado na última revista científica.  Esse é o meu cantinho, a oportunidade de deixar um pouco de ser ‘jornalista da ciência’ e passar a ser apenas uma ‘cronista’ emitindo uma coluna de opinião.  Não desejo ofender ninguém e muito menos sugerir que essa é a verdade absoluta. Forte abraço!)

3 Comentários

  1. As palavras que saem de um lugar mais profundo, chegam á tona preenchidas de emoção e sua verdade psíquica…..adoro ler textos que vem com este "recheio". Se fosse o caso, assinaria este texto como meu, porque guardadas as diferenças em relação às suas escolhas e seu trabalho, penso exatamente como você. Grata por seu compartilhar. Parabens pela reflexão, em meio a um constrangimento emocional . Acredito que quando conseguimos encontrar o aprendizado no meio de qualquer situação, ela já validou sua existencia…….assim não existem erros, só lições! Beijinho

  2. Querida Sônia,
    Gratidão imensa por suas palavras e por seu carinho!!!!
    Um forte abraço, de coração!

  3. Anônimo disse:

    Excelente o texto e leva mesmo à reflexão. Brincadeiras preconceituosas num mundo tão diverso não tem nada a ver! Temos que ser felizes com nossas escolhas e respeitar as dos outros. Parabéns! Bjs M