Entrevista Amara Moira: “E se eu fosse puta?”

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Entrevista com a autora do livro “E se eu fosse puta?”…


Como tudo começou…

Conheci a Amara há cerca de um ano, quando fui convidada
para fazer parte de uma mesa redonda sobre transsexualidade, da disciplina de
Bioética da Faculdade de Medicina da Unicamp. Nessa mesa redonda estávamos eu
(falando sobre a parte “biológica” do sexo), o Dr. Tacílio Alves da Silva
(advogado e presidente da Comissão da Diversidade Sexual e Combate à Homofobia
da OAB Campinas) falando sobre a questão legal e dos direitos das pessoas LGBT
e a Amara Moira, representando “eles” – o grupo LGBT (Lésbicas / Gays /
Bissexuais / Transsexuais e Travestis).

Apresentada para nós como transexual, profissional do sexo, aluna
de Doutorado na Faculdade de Letras da Unicamp e Militante dos direitos LGBT,
Amara chegou pontualíssima e super-profissional, contando que tinha vindo
direto do Hospital da Unicamp pois seu tio havia falecido.  Ainda assim, não deixou de comparecer ao
compromisso.  Fiquei muito impressionada
com o “peso” de meus colegas de mesa redonda e me senti privilegiada por ter
tido a oportunidade de ouvi-los falar.
 

A palestra

A palestra da Amara foi a última de nós três e ela começou
sua apresentação contando a seguinte situação, que havia acabado de passar:

Chega o cara de moto,
sobe com ela na calçada quase me atropelando, todo sorridente, eu sem saber o que
era aquilo, aí ele começa o papo:
– Nossa, é você quem
estava agorinha lá embaixo na porta do Pronto Socorro da Unicamp?
– Eu mesma.
– Veio rápido, hein?
Pernão! Parente internado?
– Um tio acabou de
falecer… aí vou ter que dar uma palestra agora, aqui na Faculdade de
Medicina, e depois corro pro velório.
– Nossa, então você
estuda aqui?
– Estudo sim.
– Nossa, é que eu te
achei bem gata, sabe, aí pensei que a gente podia se conhecer melhor. Whatsapp?
– Pode pegar sim meu
whats, querido, tó aqui, mas é cinquenta reais o programa. Me liga quando
quiser. Bjos
.”

E então ela começa sua apresentação colocando abertamente
como é estar do outro lado.  Como é não ter nem o direito de luto garantido, uma vez que a sociedade vê uma travesti
como apenas um “corpo”…

É isso o que vêem na
gente, um programinha de graça, chance de lambuzar nossos corpos de esperma ou,
talvez, chance de darem o rabicó para nós (“mas no sigilo, sabe?”) e
voltar aliviados pra suas famílias tradicionais brasileiras
.”

Amara tem um discurso forte e intenso, mas um jeito meigo e
sereno de falar.  Não precisa gritar para
ser ouvida.  Fala baixo, te recebe
sorrindo.  Aquela apresentação mudou meu
jeito de pensar.  Me deu vontade de sair
de trás da bancada da ciência e realmente fazer alguma coisa para ajudar essas
pessoas.  Vontade de, no mínimo,
engrossar o coro daqueles que lutam pelo direito de serem quem são.

Depois do “the end”…


Depois disso, passei a acompanhar a Amara nas redes sociais.
E pude testemunhar seu progresso em termos de discurso, o aumento da
visibilidade da sua fala.  Chegam a
cogitar Amara como candidata a vereadora! (tomara que dê certo!).

Até que surgiu o
livro. E eu, de um jeito modesto, quis ajudar na divulgação, humildemente,
através deste blog.  Perguntei se ela
toparia me dar uma entrevista. E ela, ainda que ocupadíssima, prontamente
aceitou!

Amara topou me encontrar para um café e contar tudo sobre seu livro

Nosso bate papo foi riquíssimo…

Ela me contou um pouco da sua história de vida, de como se
procedeu a sua transformação de um homem branco, cis, de classe média, para se
tornar a Amara Moira, nome inspirado na Odisséia de Odisseu (Homero) e que
significa Destino (Moira) Amargo (Amara).

Nome social é DIREITO!

Perguntei a ela o porquê de ela se colocar atualmente como
Travesti e não como Transexual.  Ela me
explicou que o termo “transexual” é um termo de origem médica, de certa forma
mais “bem aceito” pela sociedade. Por se tratar de uma “entidade clínica”, as
pessoas começam a ver o(a) transexual como “não tendo culpa” de serem diferentes.
Já o termo “travesti” é cheio de (pre)conceitos atrelados, como se fossem
“culpadas” por expressarem abertamente suas fantasias sexuais, como se a visão
de uma travesti remetesse à impureza, à promiscuidade, ao pecado.  E ela quer desmistificar isso…

Sem rótulos!

Definição de Transexualidade


O termo transexual (ou “Disforia de Gênero”) é definido pelo
CID-10 (o Código Internacional de Doenças) com os seguintes critérios:

  • Desconforto com o sexo anatômico natural;
  • Desejo expresso de eliminar os genitais, a fim
    de perder as características primárias e secundárias do próprio sexo e ganhar
    as do sexo oposto;
  • Permanência desses “distúrbios” por, no mínimo,
    dois anos.
  • Ausência de outros transtornos mentais.
  • Ausência de anomalia genética ou de cromossomos
    sexuais.

Amara discorda dessa classificação e coloca a seguinte
situação: usando como exemplo uma criança nascida XY e com genitais masculinos;
no momento que esta criança começa a se comportar diferentemente do que se espera
de um comportamento padrão masculino, a família imediatamente a “corrige” e diz
para se comportar direito, como “menino”.

Mas por que eu tenho que me comportar assim?
Porque você é menino, você tem ‘pipi’, e meninos não
(brincam de boneca/choram/usam salto)…

Assim cria-se inconscientemente uma relação entre o órgão
sexual e a definição do gênero.  Com o
passar do tempo, aquela criança começa a achar que a única barreira entre ela
ser quem ela é e ser o que os outros dizem que ela deveria ser é o
genital.  E começa-se a criar uma ideia
de que removendo os genitais, ela pode ser aceita como menina.

Porém, dificilmente alguém iria querer se submeter a uma cirurgia de redesignação sexual (a famosa ‘mudança de sexo’) se essas
ideias não tivessem sido incutidas em sua mente.  No momento em que se entende diferentes possibilidades,
no momento em que o “diferente” passa a ser aceito, no momento em que o genital
deixa de ser o fator determinante para a determinação do gênero, dificilmente
alguém iria querer a cirurgia.  Porém,
para obter assistência médica, psicológica e legal, os transexuais precisam
mostrar aos profissionais que se encaixam na definição do “CID-10”.

Nasce um incômodo… positivo…


Essa fala de Amara (na mesa redonda de 2015 e também na mesa
do café durante nossa entrevista) me colocou numa posição bastante
desconfortável (porém positivamente desconfortável).  Vejam a situação: nós profissionais de saúde
aprendemos com os livros.  E nos livros,
classificar doenças é uma forma didática de ensinar, de regulamentar, de
garantir direitos.

Porém, toda regra é
de fato incompleta. Toda tentativa de classificar vai necessariamente deixar de
fora alguém, como se tivéssemos uma colcha curta que mostrasse os pés quando
tentássemos cobrir a cabeça. E então o que fazer?

DIÁLOGO. EMPATIA. Se colocar no lugar do outro.

Diálogo e Empatia


No momento que se começa a falar sobre isso de forma mais
aberta, no momento em que profissionais e pessoas (“pacientes”) se colocam como
parceiros, no momento que isso deixa de ser um tabu e passa a ser um tema que
pode ser levantado para as pessoas refletirem… A sociedade começa a evoluir
para aceitar os diferentes corpos, as diferentes escolhas… A cirurgia de
transgenitalização passa a não ser mais tão importante na definição de um
gênero.

E o que é o gênero feminino afinal? E, neste ponto da
conversa, Amara entra na questão que mais toca na nossa ferida.  O que é “ser mulher”? É aquele estereótipo
baseado no conceito das mulheres brancas, cis, de classe média?  Pensando-se assim, ser mulher negra não é ser
mulher, é ser fêmea… Ser mulher trans não é ser mulher, é ser travesti? Não,
gente! Já não temos mais lugar para tais rótulos.  Ser mulher é ser o que você quiser.  E ter esse querer respeitado por todo e
qualquer outro ser.

E a sociedade evoluirá…


Até mesmo as religiões já estão se modernizando e aceitando
as diferenças.  Amara conta que
classicamente, as religiões que sempre aceitaram as travestis foram as
religiões de matriz africana (tanto que muito do linguajar coloquial deste
grupo de pessoas, o bajubá ou pajubá, vem do Candomblé).  E a epígrafe de seu livro foi escrita por uma
freira, a Maria Valeria Rezende, que é uma freira escritora e militante, pela
educação popular, pela saúde das prostitutas e ganhadora do prêmio Jabuti de
2009.  Sinal de mudança dos tempos!

Amara decidiu escrever seu primeiro livro contando um pouco da sua história e convidando
o leitor a se colocar neste lugar: “E se eu fosse
puta?”. Sem precisar brigar, bater ou usar de violência
verbal, ela nos convida, na sua narrativa, a nos colocarmos no lugar do
outro.  E dessa forma, tirarmos nossas
próprias conclusões.  As ilustrações do
livro foram feitas por Laerte Coutinho, cartunista, chargista e uma das maiores
artistas brasileiras, que assumiu sua transexualidade aos 57 anos.  Uau! Os ecos da fala de Amara já estão voando
para longe! Viva!

Pré-lançamento do livro

Seu livro será lançado em Agosto de 2016, em vários locais –
no RJ dia 2/8 (na livraria cultura), em SP dia 9/8 (também na livraria cultura)
e em Campinas no dia 15/8, local a definir!

E eu com certeza estarei lá!

Tenho muito a agradecer à Amara, pela coragem de expor sua
vida, suas emoções, seus sentimentos. 
Pela coragem de falar por aqueles que se sentem sem voz.  Pela delicadeza em nos colocar para pensar,
sem nos julgar, sem precisar gritar para se defender de nós.

Vida longa, minha guerreira! Você é maravilhosa!


‪#‎eSeEuFossePuta

1 Comentário

  1. Anônimo disse:

    MARAVILHOSO! Adorei esse post. Temos que ter um novo olhar sobre a diversidade sexual. Chega de preconceito e ignorância! Parabéns Amara pela sua determinação e coragem. Bjs M

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