[Especial Semana da Tireóide] Iodo, Selênio e funcionamento da Tireóide: É preciso repor?

[Estórias Inspiradoras] Entrevista com Gláucio Frutuoso, do perfil @resolviseratleta
15 de maio de 2017
[Especial Semana da Tireóide] Autoexame, Mitos e Verdades, Disfunções Tireoidianas na Criança & Adolescente e na Gestação
29 de maio de 2017
Esta semana, de 19 a 26 de maio, está sendo comemorado no mundo inteiro a Semana Internacional da Tireóide e em homenagem a esta campanha, decidimos fazer uma série falando sobre esta glândula.
A primeira parte desta série foi o vídeo no Youtube e se você não assistiu, comece por ele pois nele eu explico de uma forma bem simples o funcionamento da Tireóide e as principais doenças que acometem esta glândula.
Eu também compartilhei nas redes sociais, ao longo desta semana vários posts abordando outros temas relacionados à tireoide (como um informativo sobre o autoexame da tireóide, um folder da Sociedade Brasileira de Endocrinologia com mitos e verdades sobre a Tireóide, o impacto das disfunções tireoidianas na infância e na adolescência e outros que ainda estão por vir). Vou fazer um post aqui no blog com um resumo de tudo o que foi postado, vai pro ar no dia 25, o último dia da campanha! Não percam!.
Hoje, para o post da semana, decidi abordar um tema que tem sido motivo de muitas perguntas nas redes sociais e que gera muitas dúvidas nas pessoas: a questão da suplementação de Iodo e de Selênio para garantir o bom funcionamento da tireóide!
Para falar sobre isso, vou primeiramente explicar um pouco sobre a fisiologia do Iodo e do Selênio no nosso corpo.

 Iodo

 

O iodo é o mineral que faz parte da composição química dos hormônios da tireóide (T3 e T4). Sem ele, não há produção desses hormônios. Ele está presente especialmente nos alimentos provenientes do mar, como peixes, mariscos, algas e o próprio sal marinho. Todas as pessoas devem ter na sua dieta uma ingesta adequada de Iodo.
A carência de Iodo pode levar ao que chamamos de “Bócio endêmico” ou “Bócio Carencial”. Esse tipo de Bócio (aumento da glândula tireóide) foi descrito em localidades onde a ingesta de Iodo não era suficiente. Acredita-se que o Bócio ocorre em cerca de 5% da população geral e que essa prevalência aumente para 30% em áreas carentes de Iodo (onde a ingesta diária é menor do que 30 microgramas de iodo por dia). Estima-se que cerca de 200 milhões de pessoas em todo o mundo têm a tireoide aumentada por essa causa. 
No Brasil, a prevalência de Bócio Endêmico era de cerca de 21% da população em geral, na década de 50 (variando bastante dependendo da região do Brasil, sendo mais comum no interior do país e menos na região do litoral).  Este número caiu para 12% na década de 70 e cerca de 1% na década de 90. Essa queda foi observada depois que tornou-se obrigatório a “iodação” do sal comum de cozinha em especial nas áreas carentes (Correa Filho e colaboradores, 2002).
[Observação importante: o “sal marinho”, tão na moda nos últimos tempos, não necessariamente contém doses suficientes de iodo e tem os mesmos efeitos sobre a pressão arterial que o sal comum.]
No entanto, é importante ressaltar que não só a carência mas também o excesso de iodo pode ser prejudicial ao funcionamento da glândula tireoide e, em pessoas com predisposição à doenças tireoidianas ou mesmo naquelas já com doença estabelecida (como o hipotireoidismo ou o hipertireoidismo), essas disfunções nutricionais podem causar o surgimento ou a descompensação da doença.
Isso acontece pois o excesso de iodo super-satura a tireóide, causando uma espécie de “desregulação” na sua função, podendo levar a um BLOQUEIO (e por consequencia, levando ao/piorando o hipotireoidismo em quem já tem deficiência no funcionamento da tireóide – esse fenômeno na Medicina é conhecida como “Efeito Wolff–Chaikoff”) ou mesmo um AUMENTO na sua função (podendo desencadear ou piorar o hipertireoidismo, fenômeno conhecido em Medicina como “Efeito Jod-Basedow”).  Essa reação varia muito de uma pessoa para outra e não é possível ser prevista com nenhum exame.
Justamente por este motivo, a suplementação de Iodo só deve ser feita em pessoas com deficiência comprovada deste mineral no sangue.  Esta avaliação deve ser feita por um profissional habilitado (de preferência, por um Médico Endocrinologista ou Nutrólogo) e jamais deve ser realizada por conta própria e sem um planejamento adequado. É justamente por isso que a Sociedade Brasileira de Endocrinologia se posicionou oficialmente CONTRA o uso indiscriminado do LUGOL (suplemento de Iodo), o que – infelizmente – tem acontecido com muita freqüência.

Dose diária recomendada de Iodo

 

A NECESSIDADE diária de iodo varia de acordo com a idade (conforme a tabela abaixo) porém a dose diária recomendada vai variar dependendo do local de moradia, do padrão alimentar do indivíduo e da presença ou não de deficiência deste mineral (essa dose deve ser calculada por um profissional habilitado).
Idade Necessidade diária (em microgramas) Limite (Máximo a ser consumido)
0-6 meses 110
7-12 meses 130
1-3 anos 90 200
4-8 anos 90 300
9-13 anos 120 600
14-18 anos 150 900
maior que 18 anos 150 1100
Gravidez abaixo dos 18 anos 220 900
Gravidez acima dos 18 anos 220 1100
Aleitamento materno (abaixo dos 18 anos) 290 900
Aleitamento materno (acima dos 18 anos) 290 1100

Alimentos “bociogênicos”

Existem alguns alimentos, chamados “bociogênicos”, que podem interferir na absorção do iodo da dieta e agravar a carência de iodo. Exemplos são as hortaliças brássicas como a couve, o brócolis, o repolho, ervilhas e painço. É por este motivo que dizem por aí que pessoas com hipotireoidismo não devem tomar suco verde. Porém, devemos lembrar este efeito é pequeno quando a ingesta alimentar de iodo é suficiente. Portanto, se você tem uma alimentação balanceada, mesmo tendo hipotireoidismo, não tem por que não tomar suco verde!
No caso de pessoas que não tem uma ingestão adequada de iodo, o consumo destes alimentos deve ser controlado. Mas se a ingesta for adequada, não há motivos para cortá-los da dieta.

Selênio

O Selênio é um mineral que participa de vários processos no organismo, entre eles a capacidade da tireoide de “reter” o iodo e também na transformação do T4 em T3. Com isso, níveis adequados de selênio são necessários para um bom funcionamento não só da Tireóide como também de outros sistemas do corpo.
Os alimentos mais ricos em selênio são a castanha do pará, brócolis, couve, cerais, cogumelos, cebola e alho. 
Apesar disso, a suplementação de Selênio não é recomendada como “tratamento do hipotireoidismo” para quem não tem deficiência deste mineral. 
Isto porque o excesso de selênio também pode trazer efeitos colaterais, uma situação chamada pelos médicos de “Intoxicação por Selênio” e que se apresenta com, por exemplo: náusea, vômito, queda de cabelo, alterações nas unhas, alterações do estado mental e doença dos nervos (neuropatia), além do aumento do risco de diabetes mellitus tipo 2.
Concluindo: Somente quem é deficiente de selênio deve realizar suplementação pois os estudos realizados até agora não mostraram nenhum benefício desta reposição em pacientes não deficientes, com aumento do risco de intoxicação.

Cálcio e Tireóide

O cálcio, assim como o selênio, participa de processos importantíssimos no nosso corpo, como contração muscular, condução nervosa e sinalização intracelular. Ele é importante para diversos processos metabólicos, não só para a função da tireóide. Uma ingesta adequada de cálcio é essencial para qualquer pessoa. Apesar do senso comum de que os alimentos mais ricos em cálcio serem o leite e seus derivados, existem fontes não lácteas de cálcio com ótima biodisponibilidade, como por exemplo o gergelim (e o tahine), a chia, amêndoa, tofu e brócolis… (ver mais sobre o cálcio na série de posts – clique aqui).

Considerações Finais

Para concluir nosso post, afirmo que o ideal não é suplementar iodo e sim garantir uma ingesta adequada de fontes naturais. Se você mora numa região deficiente em iodo, procure consumir o sal iodado (observe a embalagem na hora de comprar) além dos alimentos naturalmente ricos em iodo. Em caso de dúvidas, procure um profissional de saúde habilitado para fazer o diagnóstico dessa deficiência.
Jamais faça uso de suplementos de iodo (em especial o LUGOL) por conta própria e sem orientação!
Um forte abraço a todos e uma ótima semana! 

1 Comentário

  1. Marilena disse:

    Muito bom o post e esclarecedor. Muitos modismos e auto medicação levam a consequências graves para a saúde. Quanto maior o número de pessoas tirando dúvidas e divulgando, melhor . Bjs M

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *