Padrões de beleza e autoimagem: considerações livres

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Na minha prática clínica (e também na vida) ouço o tempo todo pessoas insatisfeitas com a sua imagem. Muitos querendo emagrecer, outros engordar…  Outros querendo ficar mais fortes, mais secos e até mais altos… Independente do objetivo, às vezes tenho a sensação de que estamos vivendo uma espécie de insatisfação crônica com o que vemos no espelho.
Por que será que somos assim?


Existem muitos textos na internet falando sobre este assunto (padrões inalcançáveis de beleza). Mundo moderno, superexposição, maior abertura sexual, acesso mais universal à informação… São várias teorias a respeito. No entanto, acho que não se trata de um padrão derivado da cultura moderna.

Há algum tempo, li um livro chamado “Compacts and Cosmetics: Beauty from Victorian Times to the Present Days” de Madeleine Marsh.  Neste livro, a historiadora discorre sobre a evolução ao longo do tempo do uso de acessórios e cosméticos de beleza e do crescimento da indústria dos cosméticos, desde a era Vitoriana até os dias atuais.  A discussão é interessante pois revela alguns padrões de comportamento que se repetem, era após era.


Por exemplo, na época vitoriana, a posse de certos acessórios e certas características físicas eram o que distinguiam os Nobres da classe trabalhadora e da burguesia (emergente).  Com a Revolução Industrial, as classes burguesas começaram a enriquecer e queriam a todo custo se parecer com os nobres.  Estes últimos, em bancarrota financeira, perdendo seu status de elite, queriam a todo custo manter o senso comum de que o título valia mais que o dinheiro.  Todos querendo ser especiais…

Nobres usavam uma espécie de pó branco para garantir a “palidez”, pois a pele alva significava ausência de exposição ao sol – que era considerada coisa de “classe trabalhadora”.  Só que este pó era extremamente tóxico para a pele, propiciando o surgimento de erupções que deixavam marcas horríveis e faziam com que a necessidade do uso do pó fosse cada vez maior (para esconder as marcas).  Mas mesmo sabendo disso, ainda assim eles continuavam usando.

Mulheres solteiras deveriam ter a cintura muito fina para se encaixar no padrão de beleza da época e usavam um corset de metal que, por muitas vezes, perfurava seus órgãos internos.  Diversos jornais comentavam sobre a morte dessas jovens e já nesta época se levantava a discussão do quanto a perseguição (a qualquer custo) do padrão de beleza vigente era questionável…

Pele muito alva e cintura muito fina: as “panicats” Vitorianas
Conversei com um biólogo especialista em evolução (que preferiu ficar anônimo) e perguntei se essa supervalorização da imagem teria alguma raiz na evolução das espécies, na luta da seleção natural.  Ele me contou que, em todas as espécies, a escolha do par para a procriação acontece através do apelo visual.  O leão com a juba mais abundante, o pavão com as penas mais bonitas… Estes acabavam sendo os escolhidos das fêmeas e tendo mais oportunidade de passar seu DNA adiante… 


Na evolução da nossa espécie, a beleza também foi importante para a escolha dos nossos pares… No entanto, quando nos tornamos homo sapiens, com o crescimento do nosso cérebro, propiciando o desenvolvimento do raciocínio lógico, da área dos sentimentos e enfim, da nossa cognição como um todo, já poderíamos ter deixado esse comportamento instintivo ancestral para trás.  E por que ainda não deixamos?  Por que nossos padrões sociais de beleza ainda persistem nessa busca pelo inalcançável, pela tentativa constante de nos destacarmos dos outros através da ‘embalagem’ para nos sentirmos especiais?


Quando lemos livros como este da Madeleine Marsh e como o “Histórias Íntimas” da Mary del Priori (que fala dessa evolução do comportamento sexual no Brasil), vemos que na verdade, existem outros interesses por trás do padrão de comportamento social. Por exemplo, durante a segunda guerra mundial, os homens foram convocados e mulheres tiveram que assumir as funções masculinas e arregaçar as mangas.  O cartaz “we can do it!” é um marco desta época onde as mulheres já não usavam mais maquiagem ou cosméticos e a “moda” passou a ser de vestimentas que traduzissem praticidade para desempenhar as funções da casa e da fábrica.  Na época, uma mulher que se emperequetasse muito era considerada frívola, alienada e “fácil”.


Durante a guerra: arregacem as mangas!

No pós-guerra, a população estava dizimada e havia uma grande necessidade de promover o aumento da natalidade.  Como fazer com que esse comportamento feminino independente e autossuficiente se revertesse para que as mulheres voltassem às suas casas para cuidar dos filhos?  Um ícone, um ídolo que despertasse a sensualidade feminina.  O renascimento do decote, do batom vermelho, das ancas largas parideiras, a rainha das donas de casa.  Marylin.


No pós-guerra: repovoai a nação!

À partir de então, começou-se a perceber que as mulheres tinham uma vaidade quase insaciável e um potencial de consumir produtos de beleza quase infinito.  Da década de 70 em diante, a vaidade foi discretamente ‘absolvida’ e “deixou de ser pecado“.  Importando o conceito de obsolescência programada da indústria, a moda passou a ser cíclica e cada vez mais, numa velocidade cada vez maior, o estímulo ao consumo foi crescendo.  Quem consome vale mais.  O sapato que compramos ano passado não se usa mais, o batom matte líquido que compramos há 6 meses atrás agora é “out”, caído, nossa, como você ainda usa isso menina?  Agora a moda é gloss!


O mesmo vale para a indústria alimentar, de suplementos, de “PRODUTOS NATURAIS” (como um ‘produto’ pode ser ‘natural’???)…  Nossa vaidade faz girar a grande roda da fortuna da economia e eu não duvido que haja muita gente por trás da indústria da beleza, da obesidade, do fitness, das cirurgias e dos procedimentos estéticos engordando seus cofrinhos.


Não tenho nada contra a indústria, ao contrário!  O consumo de bens gera empregos e faz o dinheiro circular.  Eu mesma tenho uma coleção de batons e não abro mão do meu creminho antirrugas, mesmo sabendo que, ok, quando nascerem dobrinhas no canto do meu olho, minha vida não vai mudar em nada.  Afinal de contas, que mal pode haver em ter um pouquinho de vaidade?


Qual o problema em tentar se sentir melhor com o nosso próprio corpo?  Em tentar melhorar a imagem que vemos no espelho? Nenhum, desde que não se ultrapasse a linha tênue que separa a ‘vaidade inocente’ das compulsões, dos transtornos de imagem corporal (autoimagem), do sofrimento psíquico, do momento em que aquilo deixa de ser uma vaidade corriqueira (que você pode perfeitamente ficar sem) e passa a ser um vício, algo no qual a sua vida gira em torno.


Quando os interesse econômicos começam a interferir na saúde das pessoas é hora de parar e refletir.  Quando tomamos conhecimento de que talvez o padrão de beleza não seja uma escolha nossa, instintiva, mas sim algo imposto por um grupo de pessoas que quer ganhar dinheiro às nossas custas e comandar os nossos comportamentos, talvez seja hora de parar e pensar: precisamos mesmo disso? Não, nós podemos mudar isso. Nós podemos ser o que quisermos. We can do it!


Chega de “corpo perfeito”, chega de nos frustrarmos por não alcançarmos um padrão que não é nem nosso, chega de ensinar isso para nossas crianças.


Começo hoje uma campanha em prol do “QUE TAL SE A GENTE FOR ‘APENAS’ FELIZ, sem precisar ser perfeito?





Termino esse post com esta proposta, mas deixando em aberto as conclusões.


O objetivo é fazer pensar: o que é importante pra você? O que te faz realmente feliz?  De que lado da linha você está?  Se você acha que já cruzou a linha e precisa de ajuda, procure um profissional de saúde.  Se ainda não cruzou, cuide-se para que isso não aconteça!


E, independente de qualquer coisa: SEJA FELIZ!


Uma ótima semana a todos!


Observação 1:
Recomendo muitíssimo que assistam a este vídeo: “A História dos cosméticos” (do mesmo grupo “a história das coisas”):



Observação 2:
Quem quiser conhecer mais o trabalho de Madeleine Marsh pode assistir a entrevista que a make-up artist Lisa Eldridge fez com ela em dois vídeos: PRIMEIRA PARTE e SEGUNDA PARTE. (infelizmente, o áudio está em inglês, mas os vídeos são interessantíssimos!)


Observação 3:
Para nós “leigos”, recomendo também a leitura do livro “Histórias Íntimas” de Mary del Priori (resenha aqui) e o capítulo sobre a revolução industrial do livro “O Guia politicamente incorreto da história do mundo” de Leandro Narloch.




(Observação importante: quando ponho no título do artigo “considerações livres”, significa que é isso mesmo: são considerações pessoais, livres, que não necessariamente dizem respeito ao que foi publicado na última revista científica.  Esse é o meu cantinho, a oportunidade de deixar um pouco de ser ‘jornalista da ciência’ e passar a ser apenas uma ‘cronista’ emitindo uma coluna de opinião.  Não desejo ofender ninguém e muito menos sugerir que essa é a verdade absoluta. Forte abraço!)

2 Comentários

  1. Anônimo disse:

    Muito bom. É para refletir mesmo. O importante é ser feliz e ter cuidado com esses padrões impostos pela indústria para o consumo desenfreado. Aprendi bastante! Bjs M

  2. Anônimo disse:

    Muito bom. É para refletir mesmo. O importante é ser feliz e ter cuidado com esses padrões impostos pela indústria para o consumo desenfreado. Aprendi bastante! Bjs M

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