[Perguntas de Leitores] O uso de Nandrolona ajuda no tratamento do Diabetes?

[Perguntas de Leitores] Toda criança com baixa estatura precisa usar injeção de GH?
26 de junho de 2017
[Considerações Livres] Por que precisamos tanto de validação externa?
10 de julho de 2017

Recentemente, recebi uma pergunta de um leitor que, ao receber tratamento com Nandrolona em baixas doses percebeu sintomas de hipoglicemia e me perguntou se o uso da nandrolona poderia ajudar no tratamento do diabetes.

Vou responder a pergunta por etapas.

1) Para começar, o que é a nandrolona?

A nandrolona é um hormônio considerado ANDROGÊNICO pois tem efeito semelhante à testosterona.

A diferença da nandrolona para a testosterona é que ela, ao ser metabolizada, não é transformada em estrógenos (não é aromatizada) e por este motivo, é bastante usada em estudos científicos que tentam entender mais profundamente o efeito dos andrógenos no organismo.

Por este mesmo motivo, vem sido usada de forma abusiva como anabolizante. Deve-se lembrar que a nandrolona apenas não apresenta o efeito colateral de aumentar os níveis de estrógeno no homem; no entanto, os efeitos colaterais relacionados ao excesso de andrógenos são semelhantes aos da testosterona (leia mais no post sobre testosterona – clique aqui).

2) A nandrolona (e os andrógenos em geral) possuem algum efeito na glicemia (taxa de açúcar) e sensibilidade à insulina?

Sim e não. Diversos estudos foram feitos na literatura para tentar elucidar esta questão. Muitos desses estudos avaliaram modelos animais e alguns avaliaram os efeitos em humanos.

De uma forma geral, podemos dizer que existem três situações:

a) Quando olhamos para pessoas com deficiência de hormônios sexuais (testosterona no homem e estrogênio na mulher):

– A deficiência de hormônios sexuais (chamada HIPOGONADISMO, como ocorre na menopausa e na andropausa) predispõe a uma mudança corporal onde há maior acúmulo de gordura visceral e diminuição da massa muscular.

– O aumento da gordura visceral promove uma maior resistência à ação da insulina e com isso, predisposição ao aumento da glicemia e ao diabetes.

– Nestes casos (de deficiência hormonal), a reposição dos esteroides sexuais reestabeleceria a composição corporal, consequentemente melhorando a sensibilidade à insulina.

 

b) Quando olhamos para pessoas saudáveis:

O efeito dos andrógenos em pessoas normais (sem deficiência) varia de acordo com a dose:

– Uma dose baixa (abaixo da dose fisiológica) poderia, TEORICAMENTE, em homens, ou não ter qualquer efeito ou bloquear a produção endógena (do próprio corpo) da testosterona, levando a um quadro semelhante à deficiência hormonal;

– Uma dose fisiológica (semelhante àquela produzida pelo corpo) iria apenas repor o que o corpo precisa, porém com bloqueio da produção endógena (ou seja, não haveria efeito da deficiência hormonal, mas poderia haver um efeito negativo sobre o testículo, com risco inclusive de diminuição da fertilidade);

– Uma dose discretamente mais alta teria efeitos colaterais leves, entre eles o ganho de massa muscular e, consequentemente, uma maior sensibilidade à insulina mas também um efeito negativo sobre o testículo e com potencial risco ao fígado, próstata e outros órgãos…

– Uma dose muito alta teria efeitos colaterais mais importantes e um efeito contrário na tolerância à insulina, ou seja, poderia ao invés de melhorar a sensibilidade, PIORAR A SENSIBILIDADE (e isso acontece por diversos mecanismos, um deles é a ocupação de outros receptores esteroides como os receptores glicocorticoides – expliquei um pouco sobre isso no post sobre a glândula adrenal e os hormônios esteroides – clique aqui).

c) Em pessoas com Diabetes:

Quando estava fazendo a pesquisa bibliográfica para esse post, não encontrei nenhum trabalho testando a nandrolona em pacientes diabéticos (posso estar enganada, se algum de vocês tiver algum trabalho científico abordando este tema, por favor me envie!).

Sabemos que o metabolismo dos diabéticos é diferente dos não-diabéticos e os efeitos de qualquer medida terapêutica (seja ela medicamentosa ou não) em pessoas sem diabetes não pode ser extrapolado para diabéticos justamente por conta desta enorme diferença na fisiologia.

Considerações importantes:

Quando vemos o resultado de um trabalho científico, devemos ter em mente que aquele resultado se aplica SOMENTE à população estudada e às condições daquele estudo. Ou seja, um estudo feito com pessoas sedentárias pode ter resultados diferentes de um outro feito com atletas, ainda que o tratamento testado seja o mesmo.

Infelizmente, na mídia em geral, para divulgar “as últimas da ciência”, pessoas se utilizam da EXTRAPOLAÇÃO para tentar aplicar aquele resultado no dia a dia dos leitores… Com isso, muitas vezes o resultado de um trabalho científico é mal interpretado gerando sensacionalismo e inclusive falsas verdades.

Um exemplo disso foi uma manchete que eu compartilhei nas minhas redes sociais recentemente que dizia que “a dieta sem glúten predispunha à intoxicação por arsênico”. Recebi essa reportagem por diversos amigos que sabem que eu não como glúten e quando fui me aprofundar na leitura e pesquisar o artigo, vi que na verdade o risco de intoxicação estava relacionado a um aumento de consumo de farinha de arroz, que é usada em substituição à farinha de trigo, por pessoas que não comem gluten. Ou seja, não é a dieta sem gluten em si que aumenta o risco e sim o aumento do consumo de farinha de arroz.

Devemos ter muito cuidado e sermos muito criteriosos ao acreditar em “manchetes bombásticas”… Devemos ser mais cautelosos ainda ao indicar para o nosso amigo/vizinho/parente um medicamento ou uma dieta que deu certo para nós… E mais mais ainda ao produzirmos conteúdo que replica tais inverdades, sabendo que podemos estar influenciando outras pessoas que no fim das contas podem ser seriamente prejudicadas com esse tipo de informação.

Para finalizar, gostaria de lembrar que a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia contraindica o uso indiscriminado de esteroides anabólicos (em especial os andrógenos), para fins estéticos entre outros. Em casos de reposição em pessoas com deficiência hormonal, o ideal é que essa reposição seja o mais próxima possível do fisiológico, ou seja, daquilo que o organismo produz. Se falta insulina, deve-se repor insulina. Se falta testosterona deve-se repor testosterona (e não derivados cujos efeitos são diferentes do nosso hormônio natural). O uso de derivados de testosterona é restrito a situações clínicas muito específicas. Na dúvida, converse sempre com seu médico de confiança! E tenham muita cautela com tais prescrições indiscriminadas e, de forma alguma se auto-mediquem!

Queria agradecer ao leitor que fez a pergunta, é sempre interessante e desafiador trazer novos temas para o blog! Espero que ele goste do post e que todos vocês gostem também!

Um forte abraço a todos e uma ótima semana!

Bibliografia:

1. Frankenfeld SP, Oliveira LP de, Ignacio DL, Coelho RG, Mattos MN, Ferreira ACF, et al. Nandrolone decanoate inhibits gluconeogenesis and decreases fasting glucose in Wistar male rats. J Endocrinol. 2014 Feb 1;220(2):143–53.
2. Androgens, Insulin Resistance and Vascular Disease in Men [Internet]. Medscape. [cited 2017 Jun 26]. Available from: http://www.medscape.com/viewarticle/512077
3. Hobbs CJ, Jones RE, Plymate SR. Nandrolone, a 19-nortestosterone, enhances insulin-independent glucose uptake in normal men. J Clin Endocrinol Metab. 1996 Apr;81(4):1582–5.
4. Rodrigues JM, Oliveira VPP, Furlan JP, Munhoz AC, Rempel MRS, Brito MN, et al. Immediate and residual effects of low-dose nandrolone decanoate and treadmill training on adipose and reproductive tissues of male Wistar rats. Arch Physiol Biochem. 2017 Mar 15;123(2):68–77.

1 Comentário

  1. Marilena disse:

    Muito bom o post! Esclarecimentos detalhados para todos que procuram pesquisar o tema ou fazer uso desses hormônios. Bjs M

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *