[Perguntas de Leitores] Toda criança com baixa estatura precisa usar injeção de GH?

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Recentemente participei do Congresso Brasileiro de Endocrinologia Pediátrica (COBRAPEM) (tem vídeo no canal do YouTube contando tudo!) e como compartilhei várias informações novas sobre a área de crescimento e puberdade, recebi uma pergunta de uma mãe muito preocupada pois sua filha tinha sido encaminhada para a avaliação do Endocrinologista Pediatra para investigação de baixa estatura e a criança não queria ir pois não queria “ter que tomar injeção”.

Neste caso específico, a criança tinha verdadeiro pavor de agulhas e isso seria um problema, uma vez que o tratamento com GH requer injeções diárias subcutâneas do hormônio, da mesma forma que o tratamento com a insulina.

Para responder a esta mãe, preciso primeiramente levantar alguns pontos importantes:

  • Em primeiro lugar, o diagnóstico de Baixa Estatura deve ser feito de forma precisa (muitas vezes a família pode ter a “impressão” de que a criança é mais baixa pois acaba comparando com amiguinhos, priminhos, etc; mas nem sempre se trata de um diagnóstico verdadeiro de baixa estatura – fiz um post no blog ano passado que fala todos os detalhes deste diagnóstico – clique aqui);
  • Uma vez confirmada a baixa estatura, deve-se investigar a CAUSA. Existem inúmeras situações clínicas que podem afetar o crescimento da criança, como por exemplo:
    • Alimentação inadequada;
    • Sono inadequado;
    • Falta de atividade física;
    • Obesidade;
    • Doenças agudas;
    • Doenças crônicas;
    • Fatores psicológicos.
  • Ou seja, nem toda criança com baixa estatura vai ter deficiência real do hormônio do crescimento (GH).

No Brasil, o uso do hormônio do crescimento está autorizado para as seguintes situações:

  • Distúrbios do crescimento devido à secreção insuficiente do hormônio do crescimento, a chamada DGH (deficiência do hormônio do crescimento);
  • Distúrbio do crescimento associado à síndrome de Turner (vou fazer um post especial sobre a Síndrome de Turner em breve!);
  • Distúrbio do crescimento associado à insuficiência renal crônica;
  • Distúrbio do crescimento em crianças/adolescentes com baixa estatura nascidos pequenos para a idade gestacional (PIG), que não conseguiram acompanhar e atingir o crescimento e mantiveram velocidade de crescimento (VC) baixa durante o último ano, até aos 4 anos de idade ou mais tarde.;
  • Síndrome de Prader-Willi  (o diagnóstico de síndrome de Prader–Willi deve ser confirmado por teste genético especifico).
  • Baixa estatura idiopática, que é definida como a baixa estatura que não se encaixou em nenhuma outra causas de baixa estatura (sem diagnóstico definido) e com comprometimento evidente do crescimento e altura final.
  • Nos Adultos: Terapia de reposição hormonal em adultos com deficiência pronunciada de hormônio do crescimento.

Ou seja, além da DEFICIÊNCIA COMPROVADA DO HORMÔNIO DO CRESCIMENTO, são poucas as situações clínicas onde seu uso é autorizado pela ANVISA. E isso ocorre pois o uso do GH em outras circunstâncias ou não tem eficácia comprovada ou não tem segurança a longo prazo avaliada.

O caso dessa mãe que me fez esta pergunta é um caso diferente, pois normalmente o que vemos na prática do consultório são famílias bastante preocupadas com o crescimento da criança e quando concluímos que o uso do GH não é recomendado, percebemos uma preocupação grande destas famílias, que muitas vezes se frustram com esse tipo de conduta.

Por este motivo, decidi escrever este post, para reafirmar que:

 NEM TODA CRIANÇA COM BAIXA ESTATURA PRECISA OU TERÁ BENEFÍCIO COM O USO DO GH!

Vou dar um exemplo: se a criança tem baixa estatura causada por hipotireoidismo, de nada adiantará o uso do GH; na verdade, neste caso o tratamento correto é dar o hormônio da tireóide! Por outro lado, se a criança tem todos os hormônios normais e sua baixa estatura está relacionada à desnutrição (como acontece em alguns casos de doenças intestinais que prejudicam a absorção de nutrientes, como a doença celíaca) também de nada adiantará o uso do GH sem que se faça a correção nutricional. Ou seja: cada caso é único e cada tratamento deve ser INDIVIDUALIZADO!

O uso do hormônio de crescimento é uma ferramenta importantíssima no tratamento das crianças baixa estatura associada à deficiência de GH (ou às outras situações clínicas descritas acima) e realmente FOI UMA GRANDE REVOLUÇÃO, pois mudou o prognóstico e o bem estar dessas crianças.

Porém, assim como todo tratamento medicamentoso, o uso do GH deve ser feito com indicação precisa e com muita cautela e monitorização/acompanhamento frequentes do médico, uma vez que não é isento de efeitos colaterais.

Um outro ponto a ser salientado é que para que o tratamento tenha efeito satisfatório, o uso deve ser MUITO CORRETO. Omissões de dose ou outras situações que prejudiquem a adesão ao tratamento podem levar a resultados insatisfatórios e consequências adversas tanto do ponto de vista emocional quanto de custo-efetividade. (tem um post que fiz há algum tempo falando sobre o impacto da falta de adesão no resultado dos tratamentos de saúdeclique aqui).

Por isso, minha conclusão é: se o seu filho apresenta baixa estatura ou baixa velocidade de crescimento, procure um médico Endocrinologista ou Endocrinologista-Pediatra para avaliar o caso de forma precisa e individualizada. Minimize os fatores que atrapalham o crescimento: estimule uma alimentação adequada, a prática de atividade física, limite o tempo de TV/celular/jogos eletrônicos, garanta um sono adequado e, principalmente, muito amor e carinho para o seu filho!

Caso o tratamento com GH seja indicado, busque informações em fontes confiáveis dos riscos e benefícios, da forma correta de aplicação (injeção), não meça esforços para não pular nenhuma dose do medicamento (muitas vezes a omissão de dose ocorre por que a criança se lamenta da injeção e o responsável fica “com pena” e cede); faça o acompanhamento no tempo correto. Por esse motivo, por envolver várias esferas (não só de saúde e financeira, mas também de motivação e colaboração), o tratamento com GH deve ser discutido com a família toda, inclusive a criança, que deve ESCOLHER entrar nessa ‘corrida’, “vestir” a camisa e dar o seu melhor!

O crescimento é uma “janela de oportunidade” e pequenas condutas podem fazer grande diferença!

Espero que tenham gostado do post!

Agradeço à leitora que me mandou a pergunta, adoro quando vocês me dão inspiração para escrever!

Um forte abraço a todos e até a próxima semana!

1 Comentário

  1. Marilena disse:

    Muito bom o post! Explica de maneira fácil todos os casos relacionados ao crescimento das crianças e orienta a conduta para os pais. Parabéns!!!! Bjs M

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