Resumo do CBEM 2016 (Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia)

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Quem me acompanha pelas redes sociais (Facebook e Instagram) deve ter visto que na última semana participei do 32º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia (CBEM), que aconteceu entre os dias 20 e 24 de Setembro na Costa do Sauípe, Bahia. Este congresso foi marcado por trazer temas muito atuais no dia a dia do Endocrinologista e vou contar aqui pra vocês um resumo do que eu vi por lá!

O Congresso Brasileiro é o evento mais importante do ano para a Sociedade Brasileira de Endocrinologia. No nosso caso, o nosso CBEM ocorre a cada 2 anos, sendo alternado pelo Congresso Brasileiro de Diabetes.  Este ano de 2016 tivemos o nosso 32º CBEM, que aconteceu na Costa do Sauípe na Bahia.


CBEM 2016
Este congresso foi marcado pela inclusão de temas muito atuais relacionados ao dia-a-dia do Endocrinologista, como por exemplo, o uso de suplementos, a questão do dopping, os modismos das redes sociais e até a formação médica foi abordada.   Também aconteceram os simpósios de Obesidade, de Hepatologia (onde especialistas desta área interagiram conosco) e de Medicina do Esporte.

Foram muitos palestrantes de todos os lugares do Brasil e alguns palestrantes internacionais, com muitas coisas interessantes acontecendo ao mesmo tempo, de forma que ficava difícil escolher o que assistir!

Eu acabei escolhendo alguns temas de interesse pessoal e também alguns temas que acredito que seriam posts interessantes para trazer pra vocês, por se tratarem de assuntos muito comentados na mídia.  Vou contar passo a passo como foi!


Primeiro dia – Simpósio de Suplementação Alimentar e Cerimônia de abertura

O primeiro bloco de palestras do CBEM 2016 foi sobre suplementação alimentar. Os endocrinologistas Yuri Galeno, Roberto L. Zagury, Ricardo de Andrade e Felipe Gaia fizeram um panorama das últimas publicações sobre eficácia e segurança da suplementação com carboidratos, proteínas e outros suplementos.
As palestras foram tão interessantes que são impossíveis de serem resumidas aqui… Farei um post exclusivo sobre elas!

Mas para matar a curiosidade, alguns pontos interessantes foram abordados:
  1. Os suplementos alimentares são úteis para atletas profissionais (e talvez também para não profissionais) como uma complementação da alimentação, na tentativa de garantir o aporte de todos os nutrientes que aquele indivíduo necessita. Cada vez mais estão sendo feitos estudos sobre segurança e performance. No entanto, a maioria das pessoas não precisa necessariamente suplementar, desde que tenham uma alimentação completa e adequada.
  2. O uso de hipercalóricos já tem um forte embasamento científico, para exercícios de longa duração (em especial para maratonas, triathlon, etc). Para exercícios mais curtos (até 60-90 minutos), na imensa maioria das vezes, não é necessário! Muito cuidado com as propagandas da mídia!
  3. Foram apresentados vários estudos sobre a segurança renal do whey protein e seu uso na suplementação de atletas. Em resumo, ele é sim eficaz e seguro, DESDE QUE A QUANTIDADE DIÁRIA SEJA RESPEITADA (e para o cálculo desta quantidade, que é individualizada, deve-se procurar um profissional de saúde qualificado!)
  4. Em relação a outros suplementos (pré-treinos, cafeína, óxido nítrico): a grande maioria deles ainda necessita maiores estudos para segurança e eficácia. O suplemento que atualmente tem ganhado muita visibilidade é o HMB (metabólito da Leucina que atuaria na via da m-tor e síntese muscular) e os estudos tem apontado para bons resultados.

O primeiro dia foi encerrado com uma apresentação dos artistas do “Projeto Axé”, num espetáculo lindo!
Apresentação do “Projeto Axé”
Os músicos do projeto educativo do Axé é iniciado com a Educação de Rua, que estabelece vínculos e estimula crianças e adolescentes a saírem das ruas e ingressarem nas Unidades Educativas, espaços pedagógicos onde se realizam atividades lúdicas, artísticas e culturais, baseadas nos princípios da ética e dos Direitos Humanos.

Com o Presidente da SBEM, Dr. Alexandre Hohl, na cerimônia de abertura

Segundo dia: Uso da Testosterona em Homens e Mulheres


A manhã do segundo dia de congresso foi muito interessante: assisti a uma conferência sobre a reposição de testosterona em homens adultos (a chamada “Andropausa”), onde o Dr. Shehzad Basaria (EUA) apresentou o estudo T-Trial, conduzido para responder às principais questões sobre a reposição de testosterona em termos de eficácia, segurança, riscos e todos os resultados dos estudos mais recentes.

Na sequência, tivemos uma mesa redonda excelente sobre as condições de excesso e falta de andrógenos na mulher, com palestras sobre a síndrome dos ovários policísticos (e outras síndromes de excesso de Andrógenos em mulheres) e sobre o uso da testosterona (e DHEA) em mulheres (assunto muito em alta nas redes sociais) e as recomendações mais recentes das sociedades internacionais sobre esse assunto.

Em resumo, todas as sociedades de endocrinologia do MUNDO são CONTRA a reposição de testosterona e DHEA em mulheres saudáveis (existe apenas uma exceção) justamente pelo fato dos estudos não mostrarem benefícios reais e ainda apontarem para efeitos colaterais a longo prazo. 

Também neste segundo dia, tivemos o Simpósio de Adrenal (Encontro Brasileiro de Adrenal), com palestras de vários especialistas do Brasil abordando temas como Usos e abusos dos glicocorticóides, novos medicamentos em desenvolvimento para a reposição do cortisol (em especial da Hiperplasia Adrenal Congênita) e de mineralocorticóides, além de uma palestra brilhante sobre hipertensão de causa endócrina.  A tecnologia ainda precisa evoluir muito, mas já estamos no caminho certo!

Com o Dr. Luis Turatti, Presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)

Também no segundo dia tive a honra de ter assistido à palestra do Dr. Luiz Turatti, Presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes, sobre as evidências atuais na escolha dos medicamentos orais para o Diabetes Tipo 2.
A evolução da tecnologia no Diabetes tem aumentado muito as possibilidades terapêuticas (e melhorado a vida de muitas pessoas), mas o que os estudos tem mostrado é o que a nossa Sociedade Brasileira acredita: os medicamentos tradicionais, associados à uma dieta saudável e atividade física, além de serem mais custo-efetivos, ainda tem as melhores performances nos estudos, tanto no quesito eficácia quanto na segurança para os pacientes! 
Um salve aos veteranos! 

Terceiro dia: Hipotireoidismo subclínico, Obesidade e a minha apresentação!



No terceiro dia de congresso assisti a uma excelente palestra do Dr. José Augusto Sgarbi, que coordenou um dos maiores estudos brasileiros sobre o impacto do hipotireoidismo subclínico no risco de doenças do coração e AVC (doenças cardiovasculares). 

Recentemente, fiz um post falando sobre essa onda dos novos valores de referência para o TSH e da conduta de muitos médicos de tratar pacientes sem critérios clínicos para hipotireoidismo (aqueles com TSH entre 2,5 e 4,5). Na apresentação do Dr. José Augusto, ele apresentou as mais recentes evidências científicas reforçando a AUSÊNCIA DE BENEFÍCIO do tratamento dos pacientes nesta faixa de TSH (alguns estudos inclusive mostrando malefício!) . Mais uma vez, a decisão clínica deve ser individualizada e deve-se tomar muito cuidado com as notícias sensacionalistas da mídia!


Ainda na manhã do terceiro dia, tivemos o Simpósio de Obesidade do #CBEM2016. O Dr. Bruno Geloneze (Unicamp) apresentou o que há de mais recente na ciência sobre a eficácia, segurança e indicação da Cirurgia Bariátrica. O Dr. Alexander Benchimol (IEDE-RJ) discorreu sobre o uso dos substitutos de refeição (“shakes”) no tratamento da obesidade e, para finalizar em grande estilo, o Dr. José Cipolla-Neto (USP) fez uma brilhante apresentação sobre a melatonina e o impacto das disfunções do sono no peso e nos parâmetros metabólicos de saúde, como o Diabetes e a Hipertensão arterial.
Foi maravilhoso!!!!
Em resumo:
1) A cirurgia continua sendo um excelente tratamento para a obesidade mórbida, mas ainda não é o melhor caminho para pacientes obesos leves.
2) Já existem evidências para o uso de suplementos substituidores de refeição no tratamento e manutenção na perda de peso, desde que sejam suplementos controlados e com sua fórmula dentro dos padrões (isso não inclui os “shakes” de farmácia gente!!! A maioria dos estudos fala dos suplementos sérios, como o Glucerna, usado no tratamento do Diabetes).
3) Os distúrbios do sono (e o consequente impacto na produção de melatonina pelo corpo) estão cada vez mais sendo relacionados à doenças como obesidade, diabetes e hipertensão. No entanto, NÃO existem evidências para o uso de melatonina como medicamento para emagrecer!!! A recomendação atual é: cuidem do seu sono!!!
Na tarde deste terceiro dia, acabei não assistindo à nenhuma palestra pois estava envolvida com uma tarefa muito especial: apresentar os resultados do meu trabalho de doutorado na sessão de temas orais!

Minha apresentação no CBEM 2016

Estava super ansiosa pois meu trabalho de Doutorado, dividido em três, foi aceito (em dose tripla) para apresentação oral no Congresso… E é inevitável ficar apreensiva… Mas graças a Deus deu tudo certo! 

O nosso trabalho de mestrado e doutorado é tão suado… Que é como se fosse um filho… E dá uma alegria danada poder ter essa oportunidade de mostrar esse nosso “filho” para o mundo! 
Agradeço à comissão científica do CBEM por ter selecionado o meu trabalho para apresentação e ter me dado esta oportunidade… E um agradecimento mais que especial aos meus orientadores, Dr. Gil Guerra e Dra. Andrea Guerra, pelo apoio incondicional! E também a toda a equipe do GIEDDS (UNICAMP)!
Fiquei muito feliz e decidi compartilhar essa alegria com vocês! 
(Foi pra fechar o doutorado com chave de ouro! ❤❤❤)

Quarto dia: Fígado & Endocrinologia; Diabetes & Novos medicamentos


A manhã deste quarto dia de congresso foi marcada por um simpósio excelente que uniu a SBEM com a SBH (Sociedade Brasileira de Hepatologia). Tivemos quatro aulas maravilhosas abordando um tema muito atual na prática do Endocrinologista: a famosa “Esteatose Hepática” (conhecida como “gordura no fígado).

Os Hepatologistas Claudia PMS Oliveira e Edison Roberto Paris (Presidente da SBH) nos falaram sobre os tratamentos mais atuais da esteatose hepática, esteatohepatite (inflamação) e progressão para cirrose, além das melhores ferramentas para avaliar esta progressão da doença do fígado (tanto em termos de exames de sangue quanto de imagem, ultrassom, ressonância magnética)…

Depois, os Endocrinologistas Josivan Lima e Rodrigo Moreira discorreram sobre a relação entre a obesidade e a doença hepática e a esteatose hepática como fator de risco cardiovascular independente e seu papel na patogênese do Diabetes tipo 2.
Conferências maravilhosas!

Na segunda parte deste quarto dia de congresso optei por assistir algumas palestras sobre as novas classes de medicamentos para o tratamento do Diabetes tipo II. 
Nos últimos anos, o arsenal terapêutico para o Diabetes aumentou consideravelmente e se por um lado aumentamos as possibilidades de tratamento para os pacientes, por outro esbarramos em algumas questões que somente agora começam a ser esclarecidas:

1) Sempre que um novo medicamento é lançado, é necessário algum tempo para que seus efeitos e segurança a longo prazo sejam conhecidos. Nesse ponto, os estudos já começam a mostrar resultados satisfatórios no quesito SEGURANÇA, em especial para os diabéticos que também são portadores de doenças cardíacas. 

2) Alguns desses medicamentos inclusive tem se mostrado eficazes na DIMINUIÇÃO do risco de infarto e morte por doenças cardiovasculares! (como é o exemplo dos inibidores da SGLT-2);

3) Medicamentos que antes geravam insegurança devido aos resultados inconclusivos em relação à segurança cardiovascular nos estudos agora já se mostram seguros e têm sua eficácia mais bem estabelecida (como as sulfoniluréias e a pioglitazona);

4) Um tipo especial de medicamento (análogo do GLP-1) se mostrou extremamente eficaz não só no controle glicêmico como também na perda de peso e manutenção do peso a longo prazo. Esse medicamento sofreu um apelo midiático enorme há algum tempo o que gerou uma reação de cautela pelos médicos mas agora resultados mais consistentes dos estudos apontam para uma segurança do mesmo no tratamento da obesidade de diabéticos e não diabéticos !

5) Infelizmente o custo ainda é a principal limitação desses novos medicamentos mas isso deve melhorar com o tempo! 

Enfim, muitas novas informações para compartilhar! Que alegria ver a tecnologia farmacêutica evoluindo mas sem perder o foco da segurança para as pessoas! 


Quinto e último dia: Simpósio de Medicina do Esporte e Encerramento


O último dia do congresso foi marcado pelo Simpósio de Medicina Esportiva e Endocrinologia do Esporte. Foram palestras abordando diversos temas relacionados ao mundo da suplementação, emagrecimento, atletas de alta performance, diabéticos, uso do HCG e dopping… Foi tanta informação de qualidade que é impossível reunir tudo por aqui (vou fazer um post contando tudo!).

Porém quero deixar como o ponto alto do simpósio esse slide do Dr. Ricardo de Andrade Oliveira, da UFRJ, na sua palestra da como estimular a atividade física, onde ela cita Einstein: “Falta de tempo é desculpa daqueles que perdem tempo por falta de métodos.” Método adequado é o caminho mais rápido para alcançar nossas metas e nesse ponto, contar com profissionais capacitados faz toda a diferença! 

Depois de palestras tão brilhantes, não pude deixar de tietar os palestrantes e autores do livro “Suplementação alimentar na prática clínica”, uma iniciativa da SBEM através da CTEEE (Comissão Temporária de Endocrinologia do Exercício e do Esporte), lançado no congresso (e que obviamente eu não poderia deixar de comprar!)

Com alguns dos autores do livro “Suplementação alimentar na prática clínica”

Na foto com o nosso querido presidente Dr. Alexandre Hohl, com o Dr. Rodrigo O. Moreira, professor excelente, meu ex-chefe e amigo querido; com o Dr. Yuri Galeno e com o amigo querido e palestrante brilhante, o Dr. Roberto Luís Zagury.
Parabéns mais uma vez pela iniciativa! Vida longa e muito sucesso pra vocês!

Parabéns aos organizadores do evento (e em especial ao nosso presidente, o Dr. Alexandre Hohl) pela excelência na escolha dos temas, dos palestrantes e do lugar! 
O congresso foi um sucesso!!! #CBEM2016

Os “Extras” do Congresso


Uma das melhores coisas de estar num Congresso Brasileiro é poder encontrar tantas pessoas queridas!

Tive a alegria de reencontrar vários colegas da minha época formados pelo IEDE-RJ e além de todos serem amigos muito queridos, estão hoje representando a nova geração da Endocrinologia Brasileira em várias áreas. Tenho muito orgulho de ver a trajetória de vocês! Parabéns pelo sucesso, queridos!

Na foto com os doutores Leandro, Paloma, Joana, Luciana, Nardo e Miguel, meus ex-colegas do IEDE!
Também tive a oportunidade de reencontrar a Dra. Priscila Pessanha (minha colega de IEDE) e conhecer a querida Dra. Juliana de Paula Peixoto, lindas, simpáticas e competentes, que hoje fazem parte da SBEM-ES!

A Endocrinologia do Espírito Santo muito bem representada!

Também pude reencontrar meu eterno mestre dos tempos de UFRJ, o Dr. Leonardo Vieira Neto, que foi uma das pessoas que mais me encorajou a fazer Endocrinologia… Além da queridíssima Dra. Aline B. Moraes que foi minha colega de IEDE e hoje é mestre e doutoranda pela UFRJ; E ainda pude ter a alegria de conhecer as Dras. Mariana (que apresentou seu trabalho de mestrado) e Emanuela Cavalari , que apresentou seu trabalho de mestrado junto comigo e ainda ajudou nos registros fotográficos…
Que orgulho ver a produção de ciência do Rio de Janeiro sendo tão bem representada! 

Com a equipe UFRJ!
Um outro ponto maravilhoso de estar num congresso como esse, além da atualização científica e dos encontros, é também poder fazer uma pausa.

Todos nós podemos e merecemos tirar um momento para respirar, para refletir, reavaliar as nossas práticas, o nosso trabalho, enfim, repensar para melhorar!

Isso é uma das coisas mais importantes para qualquer profissional, mas em especial para nós médicos que muitas vezes nos perdemos na rotina dos atendimentos e esquecemos que nós também merecemos um pouco de ar!!!



Por isso, foi maravilhoso ter tido a oportunidade de ir a este congresso, ainda mais na Bahia!!!

Deixo aqui pra vocês todo o axé e boas vibrações que eu trouxe de lá!
Espero que tenham gostado do post!

Muito axé e uma ótima semana para todos!



1 Comentário

  1. Anônimo disse:

    Muito bons os temas abordados no Congresso. Como leiga vejo e me preocupo com vários usos de medicamentos por modismo e sem serem receitados por médicos. E fala se tanta bobagem… Ótimo o post! Bjs M

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