Sobre a glândula Adrenal e os hormônios esteróides…

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Recentemente, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) publicou uma nota de esclarecimento sobre a “Fadiga Adrenal” e a conduta de alguns profissionais em repor hormônios da adrenal sem evidência de que o paciente apresente deficiência dos mesmos.
A função da glândula adrenal (ou supra-renal) e seus hormônios muitas vezes é desconhecida pelos pacientes, que se sentem confusos quando notícias como essa saem na mídia.  Resolvi, então, escrever um post explicando, de uma forma bem simples, a fisiologia (funcionamento) dessa glândula.


A glândula Adrenal (ou supra-renal) tem este nome pois se localiza acima dos rins, em ambos os lados do corpo.

Esta glândula é de extrema importância para a sobrevivência do organismo pois os hormônios produzidos por ela regulam a capacidade do corpo de reagir ao estresse e ao adoecimento.

Por outro lado, tanto a diminuição quanto o excesso dos hormônios adrenais podem levar a um desequilíbrio nas funções do corpo e a uma série de doenças.


Ela é composta basicamente por duas porções, cada uma responsável pela produção de tipos diferentes de hormônios.  A porção mais externa, chamada CÓRTEX, é responsável pela produção de hormônios esteróides (ver mais abaixo).  Já a porção mais interna, chamada MEDULA, é responsável pela produção de um grupo de hormônios chamados catecolaminas, sendo seu principal exemplo a ADRENALINA.



A função de produção hormonal do córtex adrenal é regulada pela glândula hipófise, que fica no cérebro.

Os hormônios do córtex adrenal

Todos os hormônios produzidos no córtex adrenal (ou “corticóides”), assim com os hormônios produzidos pelas gônadas (ovário e testículo) são chamados HORMÔNIOS ESTERÓIDES e são derivados do colesterol.  Este nome “esteróide” significa que são ésteres (agrupamento) de colesterol, ou seja, o colesterol é necessário para a formação do núcleo básico de cada um desses hormônios.


A produção de hormônios derivados do colesterol (chamada ESTEROIDOGÊNESE) passa por várias etapas, como numa linha de montagem de uma fábrica.  As etapas básicas, que correspondem a formação do núcleo básico de colesterol (esterificação) é igual em todas as partes do córtex assim como também no ovário e no testículo.  Isso significa que os hormônios esteróides tem todos um mesmo “esqueleto básico” e o que muda são detalhes na sua superfície, como no esquema abaixo.


Os principais hormônios esteróides são:

Glicocorticóides (hormônios do córtex adrenal que regulam a glicose): seu principal exemplo é o CORTISOL,  mas também temos a cortisona, corticosterona, etc…

O principal efeito dos glicocorticóides é o de regular a glicose (eles aumentam as taxas no sangue, ao contrário do hormônio insulina, que diminui as taxas). Também regulam o sistema imunológico (defesa do organismo), além de outras funções.
Quando em níveis muito elevados, eles possuem efeito antialérgico e anti-inflamatório, sendo muito usados na farmacologia para o tratamento de certas doenças.

Mineralocorticóides (hormônios do córtex adrenal que regulam os minerais do sangue, em especial o sódio: em última instância, regulam a pressão arterial).  Seu principal exemplo é a ALDOSTERONA.

Androgênios ou andrógenos (também chamados ‘esteróides sexuais masculinos’), sendo seu principal exemplo a TESTOSTERONA.

Os andrógenos, além de regularem as características masculinas, também são responsáveis pela produção de células do sangue, da libido, também indiretamente regulam as taxas de colesterol etc.

A adrenal é responsável pela produção de pequenas quantidades de andrógenos, pois estes são necessários para essas funções no organismo, tanto em homens quanto em mulheres.  No entanto, os principais andrógenos adrenais são na verdade “precursores” da testosterona: na “linha de montagem” para a produção de testosterona, é preciso primeiro formar a PROGESTERONA (*) e em seguida o DHEA; à partir do DHEA formar a ANDROSTENEDIONA e na sequência, a TESTOSTERONA.  Através da testosterona é então produzido o ESTROGÊNIO.

O DHEA e a androstenediona são andrógenos mais “fracos” (menos potentes) que a testosterona.



– Esteróides sexuais femininos
Os esteróides sexuais femininos são basicamente de dois tipos:

* Estrógenos: sendo o principal representante desta classe o ESTROGÊNIO ou ESTRADIOL, que tem como função regular as características femininas e o ciclo menstrual, além da massa óssea entre outras funções.

* Progestágenos: sendo o principal representante a PROGESTERONA, que além de ser um precursor importante da formação dos outros hormônios, é também um dos responsáveis por regular as características femininas, o ciclo menstrual, etc.

O estrogênio e a testosterona são basicamente produzidos no ovário e testículo, respectivamente; porém, seus precursores também são produzidos na adrenal.  Essas três glândulas (adrenal, ovários e testículos) são as grandes fontes de hormônios esteróides do organismo e possuem um “maquinário” de produção hormonal muito semelhante.  No entanto, cada uma dessas glândulas possui um maquinário específico que é só dela, fazendo assim as diferenças e particularidades de cada hormônio esteróide.

Como os hormônios exercem suas funções

Para exercer a sua ação no organismo, a sua função, cada hormônio esteróide deve agir sobre um “RECEPTOR HORMONAL”, que é o responsável por ativar as funções reguladas por aquele hormônio.  Funciona como num mecanismo de chave e fechadura, sendo o hormônio a chave e o receptor, a fechadura.



Ou seja, é a ativação do receptor hormonal o que, efetivamente, vai levar aos efeitos esperados daquele hormônio.  Independente se essa ativação é feita através da ligação de um hormônio produzido pelo corpo (efeito endócrino) ou se a ligação é por um hormônio externo, como ocorre com alguns medicamentos contendo hormônio (efeito farmacológico ou exócrino), no fim das contas, se há ligação e ativação do receptor (chave-fechadura), a porta se abre: o efeito final é o mesmo.
Isso explica o que acontece por exemplo, com as pílulas anticoncepcionais (contraceptivos orais) ou com as pílulas de reposição hormonal da menopausa, que contém estrogênio e progesterona; com os medicamentos à base de ‘cortisona’ (glicocorticóides), etc.: eles agem ativando o receptor hormonal do corpo e é como se o próprio corpo estivesse produzindo aqueles hormônios.

Excesso e falta de hormônios

No entanto, quando temos uma situação em que existe EXCESSO DE ALGUM HORMÔNIO ESTERÓIDE (como no uso de medicamentos em altas doses ou como ocorre em tumores da adrenal ou do ovário/testículo que produzem hormônios), os efeitos daquele hormônio ficam exagerados e doenças podem ocorrer.

Por exemplo:
– O excesso de glicocorticóides pode causar diabetes (aumento excessivo de açúcar no sangue) (o nome dessa situação é chamada “SÍNDROME DE CUSHING“);
– O excesso de mineralocorticóides pode causar hipertensão (por aumento do sódio);
– O excesso de androgênios pode causar nas mulheres virilização (acne, pêlos, irregularidade menstrual), em homens infertilidade e em crianças, puberdade precoce.
– O excesso de estrogênios pode causar em homens ginecomastia e infertilidade; nas mulheres irregularidade menstrual, sangramentos uterinos; em crianças, puberdade precoce e aceleração do crescimento.

Uma situação curiosa em relação aos hormônios esteróides é que, por terem um núcleo semelhante, quando um hormônio esteróide está em excesso, ele fica muito “saturado” e pode acabar ocupando outros receptores, causando efeitos não só daquele hormônio como também de outros hormônios.



Isso explica porque os sintomas do excesso hormonal podem se sobrepor, por exemplo:

– O excesso de glicocorticóide, como ocorre por exemplo, nos tratamentos de asma, reumatismo, etc, pode causar também aumento de pressão (por ocupar o receptor mineralocorticóide) e acne (por ocupar o receptor androgênico);

– O excesso de testosterona (como ocorre no uso de anabolizantes por praticantes de atividade física) pode causar ginecomastia (por ocupar o receptor estrogênico) e hipertensão (por ocupar o receptor mineralocorticóide).
Além disso, quando se faz uso de um hormônio sintético (como nas pílulas anticoncepcionais e no uso de esteróides anabolizantes), este hormônio sintétíco pode por si só agir sobre mais de um receptor.  Por isso que muitas pacientes reclamam que algumas pílulas “incham” (pois retém líquido pelo efeito mineralocorticóide) ou pioram a acne (por terem efeito androgênico) e que muitos atletas dizem que algumas “bombas” fazem “secar” enquanto outras fazem “crescer” (na verdade, algumas tem efeito mineralocorticóide e outras não).

São muitos os detalhes no uso farmacológico de hormônios esteróides e não é o objetivo desse texto esgotar todos eles.  Mas é importante se ter uma idéia das suas ações e funções antes de usar certos medicamentos.  Converse sempre com seu médico!

Para finalizar, a falta destes hormônios também pode trazer prejuízos para a saúde, como por exemplo: a falta de hormônios femininos leva aos sintomas da menopausa; a falta de glicocorticóide levando à hipoglicemia e a falta de mineralocorticíde levando à hipotensão (pressão baixa).

O diagnóstico e o tratamento correto das deficiências hormonais são imprescindíveis para manutenção da homeostase (equilíbrio) do organismo.

Finalizando

Em resumo, os hormônios esteróides são importantíssimos para a regulação de diversas funções essenciais no organismo, além da função reprodutora. e para tal, estes hormônios devem estar em perfeito equilíbrio.

O uso farmacológico de hormônios esteróides deve ser feito com cautela e sempre com acompanhamento médico, devido às diversas particularidades de cada hormônio e de cada situação clínica.

Nunca utilize estes medicamentos por conta própria!

Espero com esse texto ter ajudado a esclarecer melhor sobre as funções da adrenal e de seus hormônios.

Um forte abraço a todos e uma ótima semana!




1 Comentário

  1. Anônimo disse:

    Realmente não dá para brincar com hormônios! Ao ler esse post custa acreditar que leigos usem, sem acompanhamento médico, hormônios… Ótimo texto! Bjs M

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