TESTOSTERONA: usos e abusos

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Esse post era pra ter saído no final de Novembro, para encerrar o mês da saúde do Homem, mas acabei atrasando…
De qualquer forma, é sempre pertinente falar um pouco sobre o hormônio masculino Testosterona, quais as suas ações, os seus usos clínicos e riscos (abusos), principalmente nesta época do ano (verão) em que muitas pessoas acabam fazendo uso deste hormônio esteróide com finalidades estéticas.


 Apesar de todo apelo do abuso de esteróides, tanto no esporte quanto nos praticantes de atividade física não atletas, o uso da Testosterona tem sim finalidades terapêuticas em muitos casos. 



Assim como a reposição hormonal feminina com estrogênio e progesterona, em situações onde ocorre falência testicular (*), a reposição de testosterona é muito necessária. No entanto, deve ser acompanhada de perto para monitorização dos efeitos terapêuticos e possíveis efeitos colaterais – como deve ser feito com qualquer reposição hormonal.


(*) Vou explicar melhor o que é “falência testicular” abaixo…


Para começar: o que é hormônio e o que é reposição hormonal


Aqui no blog já temos um post inteirinho dedicado à explicar o que é hormônio e o que são os hormônios esteróides (que são ésteres de colesterol) [para quem estiver interessado, é só clicar nos links].

Mas resumidamente, hormônios são substâncias químicas que nosso corpo produz para ajudar a controlar determinadas funções e, de uma forma geral, para cada função do corpo, existe um hormônio específico que “aumenta” aquela função e outro que “diminui”.  E para que nossas funções corporais estejam em equilíbrio, deve haver um equilíbrio nos hormônios “estimuladores” e “inibidores”, como numa balança, de forma que o corpo reage exatamente da forma que precisamos.

Os hormônios esteróides são assim chamados pois são derivados (ésteres) do colesterol. 

Hormônios esteróides: são derivados (ésteres) de colesterol

Os principais hormônios esteróides são os hormônios produzidos na glândula adrenal (supra-renal) e nas gônadas (ovário e testículo). Os esteróides produzidos nos ovários e testículos são também chamados ESTERÓIDES SEXUAIS.

Os esteróides sexuais são formados como numa “linha de montagem”…

As três famílias principais de esteróides sexuais são:

Estrógenos: esteróides sexuais que tem efeito de hormônio feminino e o principal dele é o Estradiol (ESTROGÊNIO);

Progestágenos: esteróides sexuais que tem efeito semelhante à PROGESTERONA;

Andrógenos: esteróides sexuais que tem efeito de hormônio masculino e o principal deles é a TESTOSTERONA.

Como agem os hormônios: o efeito chave-fechadura


Também já foi explicado por aqui que, de uma forma geral, para que um hormônio exerça sua função, é necessário que este ative um “receptor” específico nas células e tecidos.  Como se o hormônio fosse uma “chave” e o receptor fosse uma “fechadura”. 


De uma forma geral, cada hormônio tem seu receptor específico, ou seja, cada chave com sua fechadura.  No entanto, pode acontecer de diferentes hormônios (desde que quimicamente semelhantes) agirem na mesma “fechadura” (no mesmo receptor), produzindo efeitos semelhantes.

Mas hormônios semelhantes podem agir no mesmo receptor causando efeitos semelhantes…

Exemplos disso são os medicamentos com ações semelhantes a hormônios e o mais clássico e conhecido é o exemplo do cortisol (hormônio produzido pelo corpo) e a “CORTISONA” (classe de medicamentos com ação antiinflamatória e imunossupressora, que tem vários exemplares como a Hidrocortisona, Dexametasona, Prednisona, Prednisolona etc).  

Dentro do próprio corpo também existem “hormônios semelhantes”. Por exemplo, o principal estrógeno é o Estradiol (também conhecido como Estrogênio) que, quando metabolizado (degradado) pode ser transformado em Estrona e Estriol, hormônios que também atuam na “fechadura” e tem efeito semelhante ao estrogênio, porém com uma intensidade mais leve (são chamados “estrógenos fracos”).  

O excesso de estrógenos “fracos” nas mulheres pode desregular o ciclo menstrual e causar problemas de saúde enquanto que, nos homens, podem causar diminuição da produção de testosterona e a presença de ginecomastia (**).

(**) A testosterona em excesso quando é degradada também pode ser transformada em estrógenos fracos. Esse é um dos efeitos colaterais do seu uso excessivo.

Os Andrógenos


Andrógenos são hormônios que agem no “RECEPTOR ANDROGÊNICO” e, consequentemente, possuem efeitos relacionados às características masculinas. Mas, assim como os estrógenos, os andrógenos também possuem efeitos não relacionados ao sistema reprodutor. 

Mais uma vez, assim como eu fiz no post sobre os estrógenos, vou me utilizar de “licença poética” para explicar um pouco dos efeitos da testosterona. 

Quando pensamos nos mamíferos de uma forma geral, a presença do hormônio masculino dita o comportamento de “macho”, relacionado à reprodução, à defesa da unidade familiar, à capacidade de caça, luta e fuga.  Muitos efeitos da testosterona sobre o humor, o comportamento e sobre o corpo como um todo são relacionados a esse papel instintivo.  

Trazendo isso para o corpo humano e para o Homem, os principais efeitos dos andrógenos em geral (e da Testosterona em especial) são:

1) Efeitos relacionados ao sistema reprodutor:

  • Promovem a diferenciação sexual masculina na vida intrauterina (embrião masculino)
  • Promovem as características da puberdade masculina como: engrossamento de voz, aumento de pêlos e sua distribuição específica (barba, tronco, etc), distribuição de gordura mais central (andróide), estirão de crescimento.
  • Outros efeitos característicos: perda de cabelos no topo da cabeça (“alopécia androgênica”), aumento de oleosidade da pele e acne, aumento do odor axilar
  • Regulação da libido (desejo sexual)
  • Regulação da produção de espermatozóides (fertilidade)

2) Efeitos não relacionados ao sistema reprodutor:

  • Aumento da produção de glóbulos vermelhos (hemácias) – maior capacidade cardiovascular (luta-fuga);
  • Aumento da massa muscular e aumento da força;
  • Alterações no metabolismo de carboidratos e gordura, por exemplo, diminuição da adiposidade periférica (braços e pernas) o que pode levar à tendência do acúmulo de adiposidade central (abdominal) e, com isso, maior risco cardiovascular em homens do que em mulheres;
  • Regulação do sistema imunológico;
  • Regulação da força e do instinto de luta-fuga.

Diferentes andrógenos e seus diferentes efeitos sobre o receptor

Assim como existe o Estrogênio e os “estrógenos fracos” também existem no nosso corpo diferentes andrógenos com diferentes efeitos.

O principal andrógeno é a Testosterona porém, o corpo masculino produz a “Diidrotestosterona” (DHT) que é uma “super-testosterona” (cerca de 40 vezes mais potente) importantíssima na vida intrauterina para a formação dos genitais masculinos.

Existem também “andrógenos fracos” como a Androstenediona e DHEA (Dehidroepiandrosterona), que são na verdade precursores da produção da testosterona e são os andrógenos também produzidos nas adrenais.  

Estes dois hormônios são os principais andrógenos nas mulheres, que precisam sim de uma pequena quantidade de andrógenos no corpo para os efeitos não relacionados ao sistema reprodutor.  No homem, não tem tanta importância, uma vez que o corpo masculino produz a Testosterona (que é um andrógeno bem mais potente) em quantidade abundante.

As drogas (medicamentos) com efeito Androgênico

Em relação aos medicamentos com efeitos androgênicos (produzidos para reposição de testosterona e também usados como anabolizantes), as principais diferenças entre eles não está tão relacionada ao efeito androgênico em si pois, uma vez que o receptor androgênico é ativado, os efeitos (descritos acima) são iguais – independente do tipo de andrógeno!

As principais diferenças entre os fármacos está nos efeitos “extra-androgênicos”. Vou explicar:

1) Diferentes fármacos podem ter diferentes vias de degradação (metabolização): alguns vão ser eliminados mais rapidamente; outros vão ser convertidos a estrógenos antes de ser eliminados, levando a uma maior incidência de GINECOMASTIA (aumento do tecido mamário no homem).  Alguns vão afetar mais o fígado do que outros e assim por diante.  Quanto maior a dose, maior a necessidade de metabolização e maior o risco desses efeitos colaterais. 

[no caso do TRATAMENTO da deficiência de testosterona isso raramente ocorre pois a dose utilizada é muito semelhante à dose produzida pelo corpo.  No entanto, no uso como anabolizante, a dose é bem mais alta e esses efeitos são muito comuns]

2) Dependendo da conformação química, alguns andrógenos sintéticos podem ocupar outros receptores esteróides (leia mais no post sobre adrenal), levando a efeito estrogênico (ginecomastia, diminuição da libido); efeito mineralocorticóide (retenção de líquido) e efeito glicocorticóide (aumento da glicemia). 

Por isso, a “fama” de que alguns esteróides “incham” e outros “secam”… 

E um detalhe importante: quando um hormônio esteróide está em excesso, mesmo que não tenha conformação química que se ajuste aos outros receptores esteróides, ele vai acabar ocupando por causa da saturação.  Ou seja, se a dose aplicada for muito alta, esses efeitos estrogênicos, progestogênicos, glicocorticóides e mineralocorticóides vão ocorrer de qualquer forma!  E por isso, a médio e longo prazo, estes fármacos podem aumentar o risco de hipertensão e diabetes!



3) Quando se usa um andrógeno externo (assim como quando a mulher usa pílula anticoncepcional) a produção normal do corpo é suprimida. Ou seja, o corpo pára de produzir testosterona e o testículo entra em “adormecimento”.  Dependendo do tempo de utilização (e da dose utilizada), a produção normal de testosterona pode ficar tanto tempo suprimida que pode ocorrer atrofia testicular, diminuição da produção de espermatozóides e diminuição da fertilidade, da libido, alterações do humor… 

Cada organismo demora um tempo para se reestabelecer, por isso, muitas vezes atletas e usuários de anabolizantes experimentam uma fase “pós ciclo” de sintomas semelhantes à “menopausa” (andropausa), podendo apresentar inclusive fogachos, humor deprimido, cansaço, mal estar… 

(Isso fez com que, no meio do esporte, fosse desenvolvida a chamada “terapia pós ciclo”, que por um lado tenta minimizar estes efeitos mas por outro também é cheia de efeitos colaterais e complicações…)



Os usos terapêuticos da Testosterona

Existem várias situações clínicas onde a reposição de testosterona é indicada. Por exemplo:
  • Em casos de “falência testicular”: como acontece em meninos com puberdade atrasada ou ausência de desenvolvimento puberal; na Andropausa; em doenças genéticas do testículo ou da produção de testosterona; em doenças da hipófise; em casos de varicocele de longa data e criptorquidia de longa data e na “Síndrome de Klinefelter”;
  • Nos casos em que o testículo é afetado após um tratamento médico, como por exemplo após quimioterapia para o câncer; após radioterapia; após cirurgia de retirada do testículo; 
  • Em doenças crônicas como o Diabetes, a insuficiência renal crônica e insuficiência hepática (cirrose), algumas anemias (falciforme, talassemia) entre outras doenças;
  • Em algumas situações onde o testículo não foi afetado, mas existe grande perda de massa muscular (sarcopenia), a testosterona PODE ser usada como uma medida emergencial.  Por exemplo, como ocorre em grandes queimados, em pacientes em recuperação de desnutrição grave, em anemias graves, etc.
Em alguns casos, a testosterona é CONTRA-INDICADA, como por exemplo, em casos de câncer de próstata, câncer de testículo, doenças hepáticas graves…

E mesmo quando a testosterona é bem indicada e usada na dose correta, deve ser feito um acompanhamento médico frequente para monitorizar os efeitos colaterais que podem ocorrer, como por exemplo:
  • aumento excessivo dos glóbulos vermelhos (policitemia) com consequente risco de trombose, avc e infarto;
  • hipertrofia da próstata;
  • acne grave;
  • lesões e abscessos no local da injeção;
  • lesão do fígado;
  • pancreatite;
  • diabetes e hipertensão.

O uso abusivo da testosterona

Além dos efeitos colaterais que podem ocorrer mesmo em doses terapêuticas, quando a testosterona é utilizada com o objetivo de aumento de massa muscular e performance atlética (dopping), o risco desses efeitos é potencializado e outros efeitos adversos podem ocorrer.

Muitas vezes, os atletas amadores adquirem andrógenos de origem veterinária ou mesmo no chamado “mercado negro”, onde a qualidade, pureza e segurança contra contaminação são muitas vezes deixadas de lado.

Por este motivo, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) lançou uma campanha de conscientização da população sobre o uso destas substâncias.  A cartilha pode ser vista no link:

Assim como a SBEM, várias sociedades tem se reunido para lidar com o problema do dopping esportivo. Hoje, a prescrição de hormônios androgênicos é feita com receita médica controlada, retida em farmácia. 

E já existe lei transformando a venda não autorizada de anabolizantes como tráfico de entorpecentes (tanto no Brasil – Polícia Federal – como nos EUA – FBI).

A mídia, os padrões inalcançáveis de beleza e a falsa promessa de que “comigo não vai acontecer nada” (considerações livres)


Infelizmente, hoje, com a internet e as redes sociais, qualquer informação pode alcançar milhões de pessoas em um curto intervalo de tempo, mesmo que essa informação não tenha nenhum embasamento científico.  “Celebridades” nascem a todo o momento, vendendo sonhos, alimentando ilusões de que a felicidade virá quando o abdome trincar.



Não podemos fechar os olhos para as facilidades que a internet trouxe (como por exemplo, para compra de qualquer tipo de substância), além de uma cultura de culto ao corpo e às aparências à qualquer custo, onde quem faz uso de substâncias conta apenas os louros sem falar dos efeitos colaterais.  Ninguém vai postar no instagram a acne horrível, o aumento do clitóris, o engrossamento de voz ou o exame de fígado alterado.

O que se propaga é a foto de biquini na praia ou a foto sem camisa correndo na lagoa. Mas isso é real? E quanto isso custa na verdade? Não só o custo financeiro, mas o custo para a saúde, o bem estar, o tempo de vida que é dispensado nessa busca infinita de um “padrão” de beleza

Desde quando a beleza é uma só? E qual o preço da beleza? 

E não podemos deixar de pensar: depois que o adoecimento vem, quem pagará a conta? O SUS? Quem cuidará dessas complicações? O “médico” que prescreveu o ciclo??? Será mesmo?

A verdade é que, na GRANDE MAIORIA DAS VEZES, os efeitos colaterais do uso de anabolizantes só aparece após alguns anos (às vezes, após muitos anos!) deixando as pessoas com a falsa sensação de que efeito colateral é raro e “não vai acontecer comigo”.  Muitas vezes, os efeitos vem tanto tempo depois, que a pessoa pode nem mesmo relacionar ao uso do anabolizante.

Mas infelizmente, a conta sempre chega. E geralmente chega com juros.

Escrevi esse post com o objetivo de informar e desmistificar o uso da testosterona (pois existem sim usos terapêuticos para a testosterona e aqueles que precisam usá-la não precisam ter medo)… Mas, principalmente, quis incitar a reflexão sobre o quanto nossos jovens (e muitos adultos e idosos) estão se deixando enganar por essa ilusão de beleza que traz felicidade e colcando em risco o nosso bem mais precioso: a saúde!

Espero que tenham gostado do post!

Um forte abraço a todos!!!!

(OBS: muitas informações escritas aqui foram embasadas nas diretrizes da Sociedade Brasileira de Endorcinologia, nas palestras do último Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia e nos livros e artigos relacionados).

2 Comentários

  1. Anônimo disse:

    Excelente o post! Merece ser lido e seguido por muitas pessoas que procuram beleza a qualquer custo. Parabéns pelos esclarecimentos! Bjs M

  2. […] Por este mesmo motivo, vem sido usada de forma abusiva como anabolizante. Deve-se lembrar que a nandrolona apenas não apresenta o efeito colateral de aumentar os níveis de estrógeno no homem; no entanto, os efeitos colaterais relacionados ao excesso de andrógenos são semelhantes aos da testosterona (leia mais no post sobre testosterona – clique aqui). […]

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