Entre o Outubro Rosa e o Novembro Azul, precisamos conversar sobre o Câncer…
Dra. Juliana Gabriel Jornalzinho anti-fomo 0
Vou começar esse editorial de Novembro contando uma história pra vocês… O ano era 2009. Eu, na época com 29 anos, estava numa das fases mais pesadas da minha vida (hoje, olhando pra trás, vejo que possivelmente foi o meu primeiro burnout). Trabalhava concursada em 2 prefeituras (Campinas e Sumaré), totalizando 44 horas por semana. Fazia mestrado, consultório no sábado de manhã e plantões à noite e nos finais de semana. Mal tinha tempo de fazer exercício e muitas vezes, passava no “Drive Thru” e comia no carro um lanche do McDonalds pois tinha que sair de uma cidade para outra num curto intervalo de almoço. Eu era uma bomba-relógio, mas não sabia. E achava que isso era “normal” (afinal, tantos colegas médicos também viviam da mesma forma). |
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Essa imagem foi gerada por IA para ilustrar o texto |
Nunca vou esquecer daquela segunda-feira, final da manhã, emendada após o plantão de domingo a noite, eu já saindo da UBS em direção ao carro, dando graças a Deus que finalmente ia dormir. A enfermeira vem correndo me chamar porque tinha uma pequena urgência para atender e o médico da tarde ainda não havia chegado. Eu olhei pra ela e a única coisa que consegui fazer foi começar a chorar. Ela assustada, me olhou sem entender nada. E depois de uns minutos de choro compulsivo, engoli seco, sequei as lágrimas e fui atender. Só. Mais. Um. Paciente.
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Foto de outubro de 2009, com o lacinho da campanha do Outubro Rosa. |
Um belo dia, meu colega de trabalho dessa UBS veio me contar uma bomba. Ele era um médico também de 29 anos, também acumulando trabalhos e plantão, recém-casado tentando ter filhos, que ao fazer os exames de rotina descobriu um câncer no testículo. Isso foi um choque pra mim. Afinal, câncer não era o tipo de doença que a gente espera ter aos 20 e poucos anos. E ver isso acontecer com alguém tão próximo a mim (não falo apenas da proximidade social, falo da proximidade de realidades) me trouxe um choque de mortalidade que muitos médicos só vão ter bem mais tarde na vida. Esse colega disse que ao comentar sobre o diagnóstico com uma de suas professoras da especialização, ela deu a ele de presente um livro. Ele havia começado a ler e achou “a minha cara” (porque, apesar dos meus almoços no carro, eu pregava alimentação saudável, fazia grupo educativo para os usuários da UBS junto com as alunas de nutrição, até concurso de receitas saudáveis já havíamos feito por lá). Ele me disse: “você precisa ler” e me emprestou o exemplar dele. |
O livro O livro era o “Anticâncer”, do David Servan-Schreiber. (se você se interessou, compre o livro no botão abaixo: |
Esse livro conta a história de um médico que teve câncer. Ele, segundo suas próprias palavras, vivia a arrogância de um jovem promissor que com 30 e poucos anos já tinha seu laboratório de pesquisa em neuroimagem e psiquiatria. Quando um dia, um dos voluntários de sua pesquisa faltou, para não perder o dia, ele mesmo entrou na máquina de ressonância para completar a amostragem. E qual não foi a surpresa de toda a equipe quando eles identificaram um tumor no seu cérebro. O mundo dele caiu. O tumor que foi identificado tinha uma expectativa de vida de 6 meses. Ele procurou diversos colegas, diferentes opiniões e todos diziam a mesma coisa: vai viver sua vida, aproveita o tempo que lhe resta. Mas ele, com sua alma de pesquisador, não se conformou. Será que não havia nada que ele pudesse fazer para ajudar no tratamento? Ele mergulhou num trabalho de pesquisa de tratamentos não medicamentosos para o câncer. Descobriu o poder dos alimentos, do exercício, da terapia, da massagem. Na época (2009) ninguém falava de cúrcuma, ômega 3, linhaça, mas esse livro já falava. E o que eu acho melhor de tudo: o livro não é um desses livros de autoajuda de saúde que vende fórmulas mágicas mirabolantes e incita as pessoas a largar seus tratamentos. Pelo contrário. Ele deixa o tempo todo bem claro que tudo o que ele estudou e pesquisou é para AJUDAR no tratamento, para ajudar que o corpo se fortaleça e consiga combater a doença. Para minimizar os efeitos colaterais da quimioterapia e as sequelas da radioterapia. Vocês já podem imaginar o quanto esse livro marcou o meu amigo. Porém o livro ficou um tempo na gaveta (afinal, eu não tinha tempo para ler). Só comecei a leitura algumas semanas depois, durante uma ida para o Rio (vou com frequência para lá visitar minha família e o avião é normalmente o lugar onde consigo colocar as leituras em dia, até hoje). E essa foi uma outra cena marcante. No começo do livro, após contar sua história, ele começa a fazer uma recapitulação de como o câncer se desenvolve. Tudo começa com uma única célula que sofreu uma mutação e virou uma célula cancerígena. Até então, nosso corpo tem a capacidade de combatê-la. Mas em alguns casos isso não acontece. E por que? Por causa da inflamação. Ele começou a explicar os mecanismos pelos quais a inflamação crônica (aquela mesma “meta-inflamação-crônica- E foi nessa hora que tudo fez sentido. Foi como uma epifania. |
A epifania Tudo aquilo que ele estava descrevendo, todo aquele processo bioquímico microscópico estava acontecendo comigo. O estresse, a má alimentação, a falta de exercícios, o sono ruim. Era como se ele estivesse me falando exatamente o que estava acontecendo no meu corpo por dentro. E eu já sabia – só não queria enxergar. Porque enxergar exigiria mudanças e mudanças dão (ainda mais) trabalho. Mas, naquele momento, sentada naquela cadeira apertada do avião, com aquele livro na mão, novamente eu chorei. Eu tenho história familiar de diabetes e câncer. E eu não queria que acontecesse comigo o que aconteceu com meus antepassados. Eu precisava fazer alguma coisa. Depois desse dia, alguma coisa mudou. Devolvi o livro pro meu amigo e comprei um pra mim. E muitos outros exemplares para dar de presente – para familiares, amigos, pacientes. Pedi demissão da prefeitura de Sumaré, reduzi os plantões. Voltei a frequentar a academia que eu já estava pagando. Parei de almoçar no carro. E desde então, passei a me dedicar ao estudo da nutrição e das mudanças de estilo de vida que podem fazer grande diferença na nossa “caderneta de saúde” do futuro. Passei a ser uma grande “catequizadora” da mensagem do livro, de uma alimentação mais natural, com menos carne e menos industrializados, químicos, corantes e conservantes. De uma vida mais ativa e com mais significado. E posso dizer que foi graças a tudo isso que, anos depois, eu acabei me tornado vegana, me especializando ainda mais em metabologia e nutrologia, enfim, esse processo me marcou demais. Eu tinha o sonho de levar essa mensagem para muito mais gente. |
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Foto de abril de 2013, nessa mesma UBS, fazendo uma “oficina de ‘sal verde’” com a Natália, na época aluna de Nutrição da PUC. |
O sonho Foi por isso que comecei a trabalhar no Hospital Boldrini em 2014 – o hospital do câncer infantil aqui de Campinas. Eu queria ensinar alimentação saudável para as famílias dos meus pacientes e para os meus residentes. Foi por isso que eu criei o projeto “Autoconsciência alimentar 360º”, onde fazia workshops e imersões presenciais e que funcionou de 2017 a 2020 (até vir a pandemia e mexer com tudo). E ao longo desses 16 anos, vi o mundo mudar. As mídias sociais democratizaram o conhecimento. O conceito de “alimentação anti-inflamatória” se difundiu, hoje todo mundo conhece o que é cúrcuma e linhaça e ômega 3. Mas por outro lado, vieram também as fake news. E, acima de tudo, a informação que chega nas pessoas ainda é muito enviesada. Enviesada pelo algoritmo e pela indústria. A reflexão Quando a cúrcuma era só uma raiz daquelas que a gente planta em casa, ninguém conhecia seus benefícios. Mas hoje, todo mundo conhece a cúrcuma: aquela cápsula que ajuda a desinflamar… Hoje todo mundo conhece a linhaça, mas é mais fácil tomá-la em cápsulas do que comprar o grão e moer a cada 3 dias. Veja bem, eu não acho ruim ter as opções em cápsulas. Meu questionamento é: esse conhecimento só chega até as massas quando tem uma possibilidade de lucro por trás. E outros conhecimentos (como o efeito do cigarro, do álcool e da carne – em especial a ultraprocessada e a vermelha) demoram a chegar justamente pelo mesmo motivo. Então, nesse editorial que vem justamente entre o Outubro Rosa (mês de conscientização sobre o câncer de mama) e Novembro Azul (mês de conscientização sobre o câncer de próstata e também sobre o Diabetes Mellitus), eu resolvi falar sobre o tal elefante branco na sala. Sim, Diabetes, doenças cardiovasculares e câncer (as chamadas DCNTs – doenças crônicas não-transmissíveis) têm a mesma origem fisiopatológica: a meta-inflamação crônica sistêmica. E essa meta-inflamação tem os mesmos fatores de risco ambientais: começando pela alimentação (rica em componentes pró-inflamatórios e pobre em componentes anti-inflamatórios), sedentarismo e passando pela exposição a químicos (como tabaco, álcool e desreguladores endócrinos como os agrotóxicos e poluição do ar). E não podemos deixar de falar do impacto do estresse emocional nisso tudo – e nesse estilo de vida maluco que andamos levando e que nos empurram para um estilo de vida completamente estressante e “inflamatório”. Porque uma coisa está ligada a outra. E claro, não podemos mudar nossa genética (é INEGÁVEL que o componente genético tem grande influência nisso tudo), mas podemos SIM mudar nosso estilo de vida (ainda que leve um tempo) para que a gente não encontre essas DCNTs no caminho. E, se você já encontrou esses elementos no caminho (o câncer, o diabetes, o infarto do coração), mais um motivo para olhar para o estilo de vida – pois mudar o que te trouxe até aqui pode mudar o desfecho da sua doença. Lembra que deram 6 meses de vida para o autor do livro? Pois é, o David viveu mais 20 anos e dedicou esse tempo a espalhar o que ele descobriu pelo mundo. Ele faleceu em 2011, aos 50 anos. Mas seu livro e sua mensagem continuam muito atuais (e eu até hoje recomendo MUITO sua leitura). A conclusão Meu objetivo com esse texto é te lembrar daquilo que você já sabe. É talvez te causar uma epifania (igual a que eu tive ao ler o livro Anticâncer, que também me dizia muitas coisas que eu já sabia mas não queria ver). Ter fator de risco familiar (ou genético) não precisa ser uma sentença. A gente pode sim escolher nosso destino. Nós nos planejamos para tantas coisas na vida: para fazer faculdade, para casar, comprar a casa própria, comprar um carro. Porque não incluímos a nossa saúde no nosso projeto de vida? Você pode fazer isso. Você ainda pode. Independente da sua idade ou da sua condição clínica atual. Hoje, aos 45, me sinto muito mais saudável e feliz que aos 29. Sim, demorei muito tempo para conquistar a vida e a saúde que tenho hoje. Foram necessárias várias epifanias, vários burnouts e vários “pontos de virada”. Mas quem disse que nossos processos têm que ser lineares? Não importa se você já tentou por exemplo parar de fumar ou beber e não conseguiu. Não importa se já entrou e saiu da academia mil vezes ou se já tentou virar vegetariano e não durou 1 mês. Cada passo que você dá te aproxima um pouco mais da saúde que você merece ter. Não esqueça nunca disso: cada passo conta. E se precisar de ajuda, de informações de qualidade e de reforço positivo, faça parte da nossa Comunidade Tribu. Lá tem muuuuuito conteúdo, sem anúncios, sem fake news, sem custo e com a possibilidade de interagir com outras pessoas que estão na mesma busca que você. E também tem nossos livros. O “Fazendo as pazes com o doce” pode te ajudar a melhora sua relação com o açúcar e os nossos livros sobre a soja podem te ajudar a desmistificar um alimento que na verdade é super anti-inflamatório e protetor contra o câncer. Você que é nosso leitor tem 20% de desconto! |
Espero do fundo do meu coração que esse texto tenha encontrado o caminho do seu. E que a gente possa continuar juntos nessa caminhada. Até o próximo mês! Com amor, Dra. Ju 🙂 |



