O momento perfeito nunca vai chegar
Complete as frases: “Só farei ________ quando estiver tudo certo com _________” ou “Só vou começar _________ quando tiver terminado ___________”
Você já se pegou pensando assim?
Talvez, na sua cabeça, só seja possível se permitir algo quando tudo estiver em ordem: quando os astros estiverem alinhados, os problemas resolvidos e sua mente tranquila.
Você pode achar que só conseguirá se comprometer com a atividade física quando o trabalho estiver menos puxado; que só terá um hobby quando não houver mais pendências; ou que só vai fazer aquela viagem tão esperada quando estiver magra o suficiente para gostar das fotos (eu sei que o último exemplo é forte e às vezes difícil de acreditar, mas esse sofrimento existe e precisamos falar sobre isso).
Isso me lembra uma frase de Ida Feldman: “Enquanto você estiver vivo, vai ter louça”.
À primeira vista, essa ideia pode parecer um convite a viver em constante sobrecarga, como se estivéssemos sempre “trocando o pneu com o carro em movimento”. Mas não é sobre isso. É sobre entender que a vida não vai pausar para você se cuidar, se divertir ou descansar.
Imagine que você tem duas atividades: A e B.
A é vista como necessária, importante e inadiável.
B é a que você considera opcional, menos importante, substituível.
Agora, imagine que você só se permite fazer a B depois de terminar a A.
O problema é que a A nunca acaba — ou acaba só para dar lugar a outra obrigação.
O que muitas vezes não percebemos é que intercalar a atividade B no meio da A pode:
- reduzir a procrastinação em relação à A,
- tornar o processo mais leve e prazeroso,
- aumentar sua motivação,
Fazer a B mesmo sem ter terminado a A pode ser justamente o que evita o colapso. Pode ser o que te devolve bem-estar.
Substitua a atividade A por: trabalhar, limpar a casa, estudar, ler e-mails ou qualquer outra atividade imposta como “obrigação”, e a atividade B pode por: pintar, desenhar, se exercitar, ir ao cinema ou qualquer atividade que é vista como “lazer”.
Se identificou?
Além dessa relação entre tarefas, há também os “só quando” ligados à fase da vida, ao ambiente ou à situação financeira.
“Só vou começar um hobby quando tiver dinheiro sobrando” — ignorando que há hobbies de baixo custo (palavras cruzadas, leitura, escrita, lápis de cor…).
“Só vou ter uma conversa difícil quando o relacionamento estiver estável” — ignorando que ter essa conversa pode ser justamente o que evita que as coisas desandem.
O convite aqui é: não espere a condição ideal de temperatura e pressão para fazer o que você quer e gosta. Ao invés disso, gaste sua energia encontrando formas de incluir essas coisas agora, mesmo que em pequena escala. Pense em como isso pode te beneficiar a médio e longo prazo.
O que é inegociável para você?
Se é fazer atividade física, então você vai criar um espaço na agenda para isso — mesmo que seja uma caminhada rápida, exercício em casa ou subir escadas. Eu sei que nem sempre é fácil, e que algumas pessoas enfrentam mais barreiras que outras. Mas é possível começar pequeno.
Já atendi muitos pacientes que não conseguem lembrar de parar para fazer um lanche no meio da tarde porque estão muito ocupados trabalhando – e isso normalmente resulta em uma fome avassaladora no fim da tarde. Minha sugestão para eles, que normalmente utilizam algum sistema de agenda para reuniões e compromissos, é incluir um evento no calendário para o lanche da tarde – afinal, poucas pessoas não conseguem fazer um intervalo breve de 10-15 minutos. Tornar o autocuidado um “compromisso oficial” pode fazer com que você leve ele mais a sério. E no fim, a consequência é melhorar a qualidade da alimentação porque uma fome sutil (diferente da fome avassaladora) permite que você faça escolhas mais saudáveis e controle melhor a quantidade de comida ingerida.
Por fim, quero deixar claro: a ideia aqui não é aumentar sua lista de obrigações.
É te ajudar a refletir sobre o que está sendo adiado, esperando um “momento perfeito” que, com carinho, eu te digo: provavelmente nunca vai chegar.
Mas você pode (mesmo no caos, na bagunça, na correria) fazer as coisas que te fazem bem. E quando fizer, vai perceber: a vida não precisa estar perfeita para ser mais leve. Ela só precisa incluir o que te nutre de verdade.
