Setembro amarelo e a oportunidade de praticar a reconexão
Dra. Juliana Gabriel Jornalzinho anti-fomo, Produtividade 0
Em setembro, a mídia inteira (inclusive aqui na Tribu também) aborda a temática do Setembro Amarelo, por conta do dia 10 de setembro – que é o dia Mundial da prevenção ao suicídio. O que começou com uma campanha focada na conscientização e prevenção do suicídio acabou evoluindo para uma conversa muito mas ampla e abrangente sobre saúde mental como um todo, o que eu acho bastante importante.
Mas assim como outras campanhas de outros meses temáticos (como o Outubro Rosa e o Novembro Azul), o fato de termos um mês dedicado a isso não pode nos fazer esquecer desse cuidado ao longo do ano todo. E o autocuidado em saúde mental não está tão distante assim do autocuidado como um todo, afinal, nosso cérebro é parte integrante do restante do corpo e cuidar das emoções é também cuidar da saúde física – e vice-versa.
E é justamente sobre essa conexão corpo-mente que quero conversar com vocês no editorial deste mês.
Desconexão com o corpo
Essa temática da desconexão é algo que habita minha mente desde que comecei a atender pacientes. Sempre percebi que muito do adoecimento ou agravamento de condições relacionadas ao estilo de vida está ligada diretamente à desconexão com o corpo.
Tanto que em 2018, quando a onda de Podcasts estava apenas começando, eu decidi começar essa empreitada e criei um canal no SoundCloud (ele ainda existe e você pode conferir clicando aqui: https://soundcloud.com/dra-juliana-g-r-andrade). Esse projeto durou 9 episódios apenas (infelizmente), mas todos eles tratavam dessa mesma temática: a desconexão com o corpo (e dicas para reconexão).
Vivemos numa era tão “mental”, estamos o tempo inteiro presos na nossa mente, nos nossos pensamentos, que é até esperado que nosso corpo fique de lado.
Essa desconexão com o corpo se manifesta de várias formas: esquecemos de beber água quando estamos entretidos com um trabalho, uma reunião ou até um filme. Usamos calçados apertados mas só percebemos a dor no pé quando chegamos em casa à noite e os tiramos. Comemos não quando temos fome, mas quando chega o “horário do almoço”. Ou quando a ansiedade bate. Aguentamos calados ambientes tóxicos, situações abusivas, até que não conseguimos mais dormir à noite.
E o pior de tudo isso, na minha opinião, é que isso tudo é CULTURAL. Nós aprendemos que é assim que as coisas são. Não questionamos pois, afinal, todo mundo é assim também…
Só que existe aquela frase do filósofo indiano Jiddu Krishnamurti: “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente“. E o convite aqui é justamente repensar essa desconexão. Refletir em que áreas da nossas vidas ela está presente. E pensar em estratégias de mudança.
Um exemplo pessoal foi quando comecei meu processo de reconexão com meus pés. Apesar de ter sempre estudado sobre pés (pois sou endocrinologista e cuido de pessoas portadoras de Diabetes – e o cuidado com os pés é parte da prevenção de complicações dessa condição), foi preciso uma lesão na corrida e a necessidade de fortalecimento dos pés para que eu implementasse no meu dia-a-dia aquilo que sempre ensinava aos meus pacientes*.
(*) tem uma playlist inteirinha lá no nosso canal do Youtube onde falo tudo sobre pés, tanto voltado para o cuidado de pessoas com diabetes quanto falando da importancia da reconexão com os pés, do movimento “barefoot” e da minha transição barefoot na corrida:
só: não é que eu não soubesse da importância de cuidar dos pés, mas estava tão desconectada que foi preciso adoecer para ganhar essa consciência (e você não precisa passar por isso, pode começar a cuidar do seu pé desde já).
Um outro exemplo pessoal é a minha relação com a corrida. Eu voltei a correr em 2021, por recomendação da minha psicóloga, para ajudar no cuidado da ansiedade que estava vivendo por conta da pandemia.
No começo, a corrida foi uma grande válvula de escape, mas em pouco tempo, eu me vi entrando no comportamento de massa: mais kms, mais velocidade, mais provas. Minhas lesões não foram à toa: eu me desconectei completamente do meu corpo e do que ele vivia me dizendo sempre que terminava um treino. E foram preciso duas (DUAS!) lesões para que eu parasse e refletisse: o que será que meu corpo está querendo me dizer?
Para lidar com essas lesões, além de contar com a ajuda de profissionais, eu mergulhei em muitos estudos sobre corrida. E dos vários livros que li, com diferentes pontos de vista e metodologias, consegui extrair um ponto em comum: atletas amadores (e profissionais) se lesionam porque estão desconectados do seu corpo. Seguem a planilha, a metodologia, o cardápio do nutricionista, o treino de fortalecimento do personal, o calendário de provas. Mas deixam de seguir o que é mais importante: aquilo que o corpo está dizendo.
Eu mesma passei por isso e senti uma vontade grande de compartilhar essas reflexões com outras pessoas. Foi por isso que criei uma conta nova no Instagram chamada Corrida Intuitiva (@corridaintuitiva).
(obs: se você me conhece ou acompanha nosso jornalzinho há mais tempo, deve estar pensando: depois de 4 burnouts você ainda criou mais uma conta no Instagram??? Sim, parece incongruência, mas essa conta não é algo novo, ela faz parte de todo o projeto Tribu, foi apenas uma tentativa de organizar os conteúdos sobre corrida e esportes num lugar separado…)
Enfim, escrevi tudo isso não para te estimular a correr ou libertar seus pés no movimento barefoot (ainda que eu ache muito interessante que você teste). O objetivo é exemplificar o quanto nossa desconexão está presente em lugares da nossa vida que a gente nem imagina.
Por fim, voltando ao setembro amarelo…
Quando começamos um processo de reconexão com o corpo, naturalmente nossa saúde emocional se calibra junto.
Mas esse não é um processo rápido e muito menos linear.
É por isso que precisamos estar sempre lembrando e relembrando de voltar para casa (nosso corpo é nossa casa, afinal). E nem sempre vamos conseguir fazer isso sozinhos, por isso também a importância de contar com profissionais que nos ajudem a lembrar daquilo que a gente já sabe.
Então, além dos conteúdos que já mencionei acima, trago três outras dicas para você se reconectar com o corpo:
– Meditação mindfulness (fácil, rápida, acessível a qualquer hora e momento) – se você nunca testou ou nem sabe por conde começar, assista a esse vídeo aqui.
– Meditação ativa, como por exemplo uma caminhada ao ar livre ou até mesmo lavar louça em atenção plena
– Parar de tempos em tempos (se preciso, pode até colocar um lembrete para apitar no celular) para conscientemente fazer um check up geral no corpo e se perguntar: estou com sede? Com fome? Minha posição nesta cadeira está confortável? Tem alguma dor leve me incomodando que eu estou passando por cima? – isso pode soar absurdo inicialmente, mas se você começar a fazer, vai perceber que faz todo o sentido. [OBS: essa dica foi tirada do livro “mude seus horários, mude sua vida” e é uma recomendação da Medicina Ayurvedica (**)].
(**) Se você ainda não conhece esse livro maravilhoso, fiz uma resenha sobre ele aqui:
Para comprar, veja nossa lojinha da amazon: https://www.amazon.com.br/shop/dra.julianagabriel?ref_=cm_sw_r_cp_ud_aipsfshop_31Z4Q7ZCCS2NR1H43TS5&utm_medium=email&utm_campaign=base_geral_jornalzinho_anti-fomo_13&utm_source=RD+Station
