Cuidado em saúde sem contexto é só paliativo… (ou: a padronização de ideias faz mal à saúde)
Por Juliana Gabriel
Nos últimos dias, tenho acompanhado nas redes uma série de postagens sobre temas variados que me pareceram falar sobre o mesmo assunto: a padronização (*), sem levar em consideração o contexto.
Achar que todo mundo deveria ser igual, deveria agir da forma padrão ser da forma padrão, ter resultados padrão (sendo que o “padrão” ou é inalcançável ou muda cada vez que muita gente começa a “chegar lá”).
E isso parece também conversar muito com a “cultura do linchamento” que vemos nas redes – que pode ir desde discursos de ódio mais óbvios até coisas mais sutis como o “todo mundo tem as mesmas 24 horas por dia“.
Tenho refletido muito sobre isso e coletado inúmeros exemplos. Vemos isso em diferentes áreas, mas na área da saúde eu considero muito mais grave. E por isso a importância de abordar esse assunto… mas tentar resumir toda essa complexidade nesse texto tem sido uma tarefa difícil. Ainda assim, achei muito válido trazer a discussão pra cá, nesse nosso espaço para conversas sinceras. Para pelo menos começarmos um diálogo.
Vou citar alguns exemplos mais importantes que coletei, para ilustrar o que quero dizer.
(Uma observação, para contextualizar: eu gosto muito de seguir nas redes páginas que falam sobre assuntos que eu não domino ou não vivo na pele – como por exemplo, perfis que abordam o racismo, a LGBTQIAPN+fobia, a gordofobia, etc – acho muito importante para ampliar meu horizonte e exercitar a habilidade de me colocar no lugar do outro. Muitos dos exemplos que escrevo abaixo vem de postagens dessas páginas e eu recomendo muito que vocês as acompanhem também! Vejam todas as referências no final do post)
Exemplo 1: futebol
Estamos em plena copa do mudo e vi uma postagem explicando a origem por trás do nosso jeito de jogar bola. A ‘marca’ brasileira no futebol é o drible e, segundo o que diz a matéria, os jogadores que protagonizaram essa forma de jogar o fizeram pois na época, jogadores negros não poderiam tocar em jogadores brancos durante a partida ou seriam penalizados (dentro e fora do campo). O drible foi uma forma de conseguir continuar jogando sem sofrer essa represália. Ele nasceu inspirado na dança do samba, na ginga da capoeira. O drible conta muito mais sobre a nossa História do que eu poderia imaginar.
Eu não sabia disso e fiquei bastante reflexiva. Quantos marcos da nossa cultura vem de contextos históricos tão importantes e a maioria de nós nem faz ideia? É muito fácil interpretar o drible como apenas uma artimanha de jogo, se não levarmos em consideração o contexto.
Depois disso, comecei a lembrar de outros exemplos onde fazemos a mesma coisa.
Exemplo 2: álcool
Desde que li o livro “Quit like a woman“, tenho olhado para o álcool com outros olhos. No livro, ela traz uma contextualização histórica, política e econômica sobre a “cultura do álcool” e como essa indústria conseguiu incutir a bebida no hábito cotidiano da maioria das pessoas do mundo, mesmo com tantas evidências científicas demonstrando os perigos do seu consumo.
E o ponto mais interessante foi como eles conseguiram subverter o discurso para culpabilizar o indivíduo e absolver a substância: “beba com moderação”. Significa que se você fica bêbado, a culpa é sua, você é que não soube beber. Mas como posso julgar a ‘capacidade de moderação’ de alguém em contato com uma substância que justamente mexe com o nosso cérebro, com a nossa capacidade de julgamento? Se é o próprio álcool que tira nossa “moderação”, como podemos culpar o indivíduo e absolver a substância?
Imagina alguém dizer “fume crack com moderação”. Parece absurdo, não é? Mas com o álcool (guardadas as devidas proporções), parece que o problema está somente e apenas na pessoa e não na substância. Para mim, esse é o maior exemplo de manipulação da opinião pública a partir da construção de uma cultura de glamourização de um produto (sim, o álcool é um produto).
Quando li sobre isso neste livro, muitas janelas se abriram na minha mente e comecei imediatamente a pensar em muitos outros exemplos: o cigarro, o açúcar e outros componentes dos alimentos ultraprocessados (inclusive uso esse mesmo exemplo no livro “fazendo as pazes com o doce”), o ‘mito da beleza’, a cultura da magreza extrema e por aí vai…
E entrando um pouco mais na área da saúde, um terceiro exemplo, também inspirado numa postagem que vi nas redes:
Exemplo 3: a presença do leite como alimento ‘universal’ no nosso Guia Alimentar
A prevalência de intolerância à lactose em adultos é em torno de 65% no mundo. No Brasil, segundo um artigo de revisão sistemática publicado recentemente (Barbosa et al. Para Res Med J. 2020;4:e33. DOI: 10.4322/prmj.2019.033 ) ela pode variar de 50 até 100% dependendo da etnia.
“(…) um estudo realizado no Brasil com uma amostra de 567 indivíduos, acerca da prevalência da intolerância a lactose no adulto, demonstrou 57% em brancos e mulatos, 80% em negros e 100% em japoneses. Outros estudos ratificam ainda a elevada prevalência na população brasileira, os quais apontam um maior número nas regiões sudeste e sul do pais respectivamente.“
E o Guia Alimentar da População Brasileira do Ministério da Saúde coloca o leite como um alimento que deve ser consumido por TODOS.
Sem entrar no mérito da questão animal e ambiental, como pode um documento como esse desconsiderar o nosso contexto biológico?
E isso vai ainda mais longe: nossa formação médica também não leva isso em consideração. Somos treinados a fazer triagem (“screening“) de doenças consideradas de alta prevalência, como Hipertensão (20% da população) e Diabetes (8% da população).
Mas não somos ensinados a rastrear de forma sistemática a intolerância à lactose (IL) e talvez seja por isso que eu, mesmo sendo endocrinologista, acabo fazendo muitos diagnósticos de IL em adultos – que passaram uma vida inteira tendo sintomas leves ou até mesmo moderados, sem ter um diagnóstico.
É nesse exemplo que começo a demonstrar a gravidade que é estimular um “comportamento padrão” sem levar em conta o contexto. Isso já é perigoso em qualquer área, mas quando se trata da área da saúde, isso quebra com o fundamento principal no qual se baseia o cuidado em saúde: “Primum non nocere“, a frase no Juramento de Hipócrates que significa ‘primeiro não fazer mal’.
Exemplo 4: prescrição médica e atendimento psicológico não tem como serem isentos de um viés político
Um outro perfil que gosto muito de acompanhar nas redes é o da psicóloga Flávia (@despatologiza). Ela sempre coloca essa questão do contexto no cuidado em saúde mental. Não existe falar de saúde mental sem levar em consideração classe social, raça, nível de escolaridade, acessos.
E isso vale para qualquer área da saúde. Na nutrição, por exemplo, o perfil do José Carlos (@onutrifavelado) que aborda muito a questão dos desertos alimentares, do contexto econômico no acesso a comida.
Na área da educação física, quantas vozes mostram tudo o que o esporte pode fazer pelo desenvolvimento de uma criança ou adolescente e ainda assim não há incentivo ou políticas públicas para ampliar esse acesso. E quando se tratam de meninas, menos ainda.
Na prescrição médica, isso é bastante óbvio. O preço dos medicamentos, exames e procedimentos; o acesso às tecnologias mais de ponta, a irregularidade no fornecimento de recursos para o SUS. Enquanto existe um mercado crescente de procedimentos caríssimos sem nenhum respaldo científico, que enriquecem uma meia dúzia (às custas da vulnerabilidade de pessoas que podem – ou nem sempre podem – pagar), um enorme número de pessoas se acumula em filas de espera para acesso ao mínimo.
E tem um outro lado que quase ninguém fala mas segue acontecendo: o impacto ambiental da nossa prescrição.
Tudo o que um médico ou nutricionista prescreve gera um impacto: de lixo, de fortalecer ou enfraquecer uma certa cadeia produtiva, de afetar a economia de uma família e uma comunidade.
Nossa prescrição (ou orientação profissional) é como jogar uma pedrinha num lago. Muitas vezes, somos formados para observar a ondulação próxima (o impacto daquela prescrição naquele paciente, na próxima consulta). Mas só porque não estamos olhando, não significa que essa ondulação não vá chegar do outro lado do lago – e como ela vai chegar.
Nossa prescrição tem a responsabilidade de cuidar do outro, mas também do planeta.
E ignorar esse contexto por décadas tem contribuído para a catástrofe ambiental e climática que estamos vivendo (mesmo que ninguém esteja falando sobre).
Fiquei pensando muito na frase “Cuidado em saúde sem contexto é só paliativo“. Se a gente continuar ignorando o contexto, será que estamos realmente cuidando? De nós e da nossa casa?
(observação: na última NaturalTech ministrei uma palestra sobre padrões alimentares e longevidade e incluí a longevidade do Planeta nesta análise. Deixei esta aula aberta no YouTube para quem quiser ver: https://youtu.be/SIlZbszgEbc )
Juntando tudo
Agora, nesta altura do texto, vocês já devem estar imaginando muitos outros exemplos.
Pensar em tudo isso é muito angustiante (pelo menos para mim). Mas o que podemos fazer para minimizar esta angústia é, em primeiro lugar, nomeá-la. Falar sobre isso é o primeiro passo.
Um segundo passo é começar a desenvolver a contra-cultura de sempre tentar levar em consideração o contexto antes de fazer qualquer julgamento ou tomar qualquer decisão. “Ser a mudança” é um excelente lugar para começar. E podemos começar pequeno: ao ler uma notícia na mídia ou ouvir alguém falando mal de alguém.
Antes de julgar, que tal tentar entender?
Aos poucos, isso vai se tornando um hábito – e se espalhando: pois bons exemplos arrastam mais do que qualquer palavra. Vamos contaminando pessoas ao nosso redor a olhar o mundo com mais empatia (pois levar em conta o contexto não deixa de ser um exercício de empatia).
E quem sabe, grão de areia por grão de areia, vamos construindo uma nova cultura, uma nova sociedade, um novo mundo?
Talvez agora você esteja pensando que sou uma sonhadora. Mas se eu não pensar nesse horizonte, se eu não acreditar na mudança, de onde tiraria forças pra continuar?
Espero que você possa ser sonhador(a)(e) comigo.
Vamos juntes?
Referências:
Post 1 – a história do drible: https://www.instagram.com/reel/DaOIQSLxY_e/?igsh=MTJsZTN3bXd5M2J3NQ==
Post 2 – futebol e luta de classes: https://www.instagram.com/p/DaOWUF6gk_z/?igsh=MWZvM2NxdHZmaWNreg==
Livro “Quit like a woman” – https://www.amazon.com.br/dp/B0828Z1WT4?linkCode=ssc&tag=onamzribdeand-20&creativeASIN=B0828Z1WT4&asc_item-id=amzn1.ideas.V6EWC8DA950U&ref_=aip_sf_list_spv_ons_mixed_d_asin (link para nossa lojinha da Amazon)
Livro “Fazendo as pazes com o Doce” (TEM CUPOM DE DESCONTO PARA LEITORES DO JORNALZINHO!): https://pay.hotmart.com/Q98322749V
Livro “O mito da beleza” – https://www.amazon.com.br/mito-beleza-imagens-usadas-mulheres/dp/8501113522/ref=asc_df_8501113522/?tag=googleshopp00-20&linkCode=df0&hvadid=379721054344&hvpos=&hvnetw=g&hvrand=13000564768298883530&hvpone=&hvptwo=&hvqmt=&hvdev=c&hvdvcmdl=&hvlocint=&hvlocphy=9100350&hvtargid=pla-786135642697&psc=1 (link para nossa lojinha da Amazon)
Post 3 – Leite no Guia alimentar e desigualdade racial – https://www.instagram.com/reel/DaLxJ0HPYoH/?igsh=NG1tdjRrZXZpZGJx
Artigo citado: Barbosa NE, Ferreira NC, Vieira TL, Brito AP, Garcia HC. Intolerância a lactose: revisão sistemática. Para Res Med J. 2020;4:e33.
Link para baixar o pdf: https://prmjournal.emnuvens.com.br/revista/article/download/47/46/37
Post 4 (@onutrifavelado) “Todo mundo tem as mesmas 24 horas” – https://www.instagram.com/p/DaBTX-Gg2H1/?igsh=d3A4Mm03NTNobTk2
Post 5 (@despatologiza) “Psicólogo despolitizado e sem consciência de classe pode ser um grande reprodutor de violências” – https://www.instagram.com/p/DZoUVtXvkiY/?igsh=NjE0bnhod21tM2g0
Palestra: “Qual a melhor dieta para longevidade?” –
