Estou de férias da corrida (relato de uma relação entre corrida e burnout)
Eu voltei a correr em outubro de 2021, estimulada pela minha psicóloga, para ajudar a lidar com a ansiedade da pandemia.
Eu amava correr, mas parei por conta de lesão lá em 2013 e até então nunca mais tinha voltado. Mas era algo que eu amava fazer e então ela sugeriu que eu voltasse, pois a ideia era incluir uma atividade na minha vida que não fosse trabalho e que me trouxesse alegria.
Porém, eu ainda não estava curada.
Eu tenho uma personalidade propensa a ser “CDF” e o que era pra ser um hobby virou uma meta.
Eu amei a sensação de liberdade que a corrida me trouxe!
Mas entrei no loop de querer melhorar cada vez mais.
Em 6 meses fui de 0 a 5km. Em mais 3 meses, corri 10 km.
Foram 10 provas entre março e novembro de 2022. DEZ PROVAS.
Até que na última, eu quebrei. Tendinite de gliteo.
Meu corpo me parou.
2 semanas sem conseguir andar de dor. Mais 1 mês até conseguir voltar a correr.
E muita frustração envolvida…
Em dezembro de 2022 eu entrei em burnout.
Na época eu achei que a falta da corrida (da minha “válvula de escape”) por causa da lesão contribuiu para o fundo do poço que eu cheguei. Hoje, vejo diferente.
Eu já estava em esgotamento. A corrida foi inicialmente um respiro, mas acabou virando mais um pratinho pra equilibrar.
Em 2023 eu desacelerei…
Foquei na minha recuperação, fiz “só” 3 provas no ano todo, comecei a estudar sobre lesão, overtraining, barefoot…
Na vida pessoal, um ano sem compras, redução da carga de trabalho, mudanças positivas acontecendo.
Em resumo, foi um ano ótimo!
E ai veio 2024: eu estava ‘tão bem” que decidi correr minha primeira meia maratona!
Durante a preparação, nova lesão (tendinite no tornozelo), a menos de 3 meses da prova. Tentei cuidar, mas não consegui terminar a prova por dor.
Era óbvio, mas eu não enxergava: eu ainda não tinha saído completamente do burnout e incluir uma preparação de meia na equação desequilibrou tudo.
Meu corpo mais uma vez me parou.
Graças a essa frustração (de não terminar uma prova), eu comecei a refletir… e então decidi mudar de rumo.
Ir para a corrida de trilha era uma vontade antiga. Tinha o fato de ser uma modalidade que fortalece o tornozelo (e o corpo todo!). Mas o principal motivo foi por causa do “mindset” do trail.
Na corrida de trilha, o “pace” é o menos importante.
O que importa de verdade é a jornada.
E mais ainda: a competição da corrida de rua da lugar a colaboração, ao senso de comunidade. É outro ritmo, outro peso. Ali, minha autocobrança e perfeccionismo não encontraram mais lugar pra existir.
Ali eu encontrei a natureza – e uma família.
Mas eu ainda “precisava” terminar a meta dos 21km na rua.
E aí veio 2025 com a primeira meia maratona de rua entre duas provas duras de trilha.
Só que dessa vez eu já estava consciente.
Os pratinhos do trabalho e da vida pessoal estavam mais gerenciáveis, mas a carga de treino ficou muito pesada.
Eu vi meu corpo cansando. E tive medo de entrar em burnout de novo ou lesionar de novo.
Então, pra isso não acontecer, resolvi fazer diferente. Resolvi correr e me preparar de forma “intuitiva”.
Ouvir o corpo.
Beber água quando tem sede, comer quando tem fome, PARAR E DESCANSAR QUANDO O CORPO PEDIR.
Parece óbvio, mas eu não fazia isso: eu cumpria a planilha, como cumpro com meus compromisso profissionais.
Em 2025, eu chutei o perfeccionismo pra longe e ouvi meu corpo.
E não vou mentir: deu um medo danado de não dar certo!
Porque, pros meus padrões anteriores, eu “não estava treinando direito”. Eu estava “descansando demais” caminhando demais, com pace “alto demais”…
Mas na verdade, deu muito certo!
Indomit mar/2025 (minha primeira prova de trail) – 12km concluídos sem lesão, sem fadiga.
Maratona do Rio jun/25: meus primeiros 21km, cheguei entre os últimos feliz da vida e sem dor.
La Mision ago/25: 15km com quase 1000 de elevação, sem lesão e com a confiança nas alturas!
E 2026 veio com chave de ouro: 21km na montanha!
Mesmo “descansando muito” “andando muito”, conclui a prova abaixo do meu tempo alvo e não consigo nem explicar a alegria que foi virar meia maratonista de montanha!
Mas depois da prova, precisei encarar a realidade: eu tô cansada.
Eu tô cansada de correr por obrigação.
Cansada de emendar uma prova na outra, uma meta na outra, uma superação na outra.
Então, seguindo a filosofia da corrida intuitiva, eu decidi tirar férias.
Nas últimas semanas, parei de correr. Fiquei só nas caminhadas, me dediquei a um projeto pessoal (a mágica da arrumação), vivi outras coisas.
E hoje, depois de várias semanas, senti vontade de correr de novo.
Sai pra caminhar e no meio, veio aquela vontade… um trote zinho leve, o vento no rosto, sem meta, sem pace, sem prova alvo.
Apenas o prazer de correr.
Ainda não quero finalizar minhas férias. Se alguém perguntar, por enquanto vou continuar dizendo que estou em pausa.
Mas pode ser que eu corra escondido, só por prazer, entre uma caminhada e outra.
Não conta pra ninguém tá?
Ps.: preciso aprofundar com vocês a teoria das fases do burnout e da relação disso com o overtraining, mas vai ficar pra um próximo post pq esse já está grande demais.
Um grande abraço a todes, com muito carinho!
OBS: fiz uma outra conta no instagram só para compartilhar meus conhecimentos sobre corrida, lesão, overtraining, barefoot… se você tem interesse, me siga por lá!
@corridaintuitiva
